Ana Paula Ribeiro Tavares nasceu na Huíla, Sul de Angola.
Historiadora com o grau de mestre Literaturas Africanas de Língua Portuguesa. Com a obra Dizes-me Coisas Amargas como os Frutos foi galardoada com o Prémio Mário António de Poesia 2004 da Fundação Calouste Gulbenkian), Ana Paula tem participado com poesia e prosa em várias antologias em Portugal, Brasil, França, Alemanha, Espanha e publicou alguns ensaios sobre História de Angola.
Obra literária:
1985- Ritos de Passagem (poesia), UEA (Angola)
1998- O Sangue da Buganvília (Cabo Verde)
1999- O Lago da Lua «Caminho da Poesia», n.º 65 (poesia)
2001- Dizes-me Coisas Amargas como os Frutos «Caminho da Poesia», n.º 70
2003- Ex-Votos «Outras Margens», n.º 20 (poesia)
2004- A Cabeça de Salomé «Outras Margens», n.º 33 (crónicas)
2005- Olhos do Homem que Chorava no Rio «O Campo da Palavra», n.º 139
2007- Manual para Amantes Desesperados «Outras Margens», n.º 61
“Ana Paula Ribeiro Tavares, desde muito cedo demonstrou apetência para a escrita e para o saber. Com um carácter sagaz e observador, Ana Paula guardava no mais íntimo do seu ser todos os registos, que traduz na sua obra literária.
Para nós é fácil percebê-la porque tivemos o privilégio de partilhar, desde os bancos da escola e das brincadeiras de rua, o Amor por uma terra que em dias de Setembro nos premiava com as flores de jacarandás e o forte odor de terra molhada.
Cabe-me pois, em nome do Presidente do projecto “Minha Angola”, a honra de presentear-vos com excertos poéticos que traduzem os sentimentos telúricos de todos os que vivenciaram terras angolanas. “
Filomena Malva
Rapariga
Cresce comigo o boi com que me vão trocar
Amarraram-me já às costas, a tábua Eylekessa
Filha de Tembo
organizo o milho
Trago nas pernas as pulseiras pesadas
Dos dias que passaram...
Sou do clã do boi -
Dos meus ancestrais ficou-me a paciência
O sono profundo de deserto
A falta de limite...
Da mistura do boi e da árvore
a efervescência
o desejo
a intranquilidade
a proximidade
do mar
Filha de Huco
Com a sua primeira esposa
Uma vaca sagrada,
concedeu-me
o favor das suas tetas úberes.
Ana Paula Ribeiro Tavares
As Gentes de Mpinda
As gentes de Mpinda e Mbanza Kongo
Colocaram nos braços as pulseiras
Beberam o vinho de palma
Andaram em círculo
Deixaram para as mulheres o trabalho
De apanhar os frutos maduros da palmeira
Coro:
Se não consegues descansar, és escrava
Mandam-te à lenha
Mandam-te à água
Mandam-te aos frutos
Na cozinha as mulheres tratam da gordura
No quarto as mulheres tratam dos mais novos
Os velhos não comem mais carne
Sentam-se ao sol a desfiar palavras
Coro:
Se não consegues descansar, és escrava
Mandam-te à lenha
Mandam-te à água
Mandam-te ao frutos
EX- Votos Ana Paula Ribeiro Tavares
1.
Corpo já lavrado
eqüidistante da semente
é trigo
é joio
milho híbrido
massambala
resiste ao tempo
dobrado
exausto
sob o sol
que lhe espiga
a cabeleira.
2.
O ventre semeado
deságua cada ano
os frutos tenros
das mãos
(é feitiço)
nasce
a manteiga
a casa
o penteado
o gesto
acorda a alma
a voz
olha pra dentro do silêncio milenar.
3.
O risco na pele
acende a noite
enquanto a lua
(por ironia
ilumina o esgoto
anuncia o canto dos gatos)
De quantos partos se vive
para quantos partos se morre um rito espera-se faca
na garganta da noite
recortada sobre o tempo
pintada de cicatrizes
olhos secos de lágrimas
Domingo, organiza a cerveja
de sobreviver os dias.
.4.
Um soluço quieto
desce
a lentíssíma garganta
(rói-lhe as entranhas
um novo pedaço de vida)
os cordões do tempo
atravessam-lhe as pernas
e fazem a ligação terra. Estranha árvore de filhos
uns mortos e tantos por morrer
que de corpo ao alto
navega de tristeza
as horas.
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