(ao Zé António)
Em cada teu poema, em cada verso,
Cada razão indago, e não consigo
Nenhuma que me baste, meu amigo,
P’ra me deixares em dor tão forte imerso.
Em que jardim ou livro ou universo
Escondido, sorrirás ao que te digo,
Dizendo vires, mais tarde, ter comigo,
Fingindo que da morte há um reverso?
Febril, procuro a sorte dum abrigo,
Que me consumo em pranto submerso.
Talvez nalgum conceito de Pessoa,
Fingindo que te finges o inverso
Do poeta que finge que o jazigo
É máscara que usa enquanto voa.
Na distância que separa o sonho do real,
O silêncio foi cortado por alguém;
Mas ele estava longe; muito longe, muito aquém,
P’ra poder escutar quem passa e pára e fala mal.
E eu estava completamente absorvido
Na dura empresa de tentar compreender...
Até que, de repente, deixei de o ver;
Isso deixou-me bem surpreendido.
É que havia, enfim, terminado aquele dia.
A imagem dele estava algures no escuro;
A minha imagem (aceitá-lo é duro),
Que, à falta de luz, já o espelho não reflectia.
Incerteza
(à Gó)
Dói-me o silêncio com que me vens à saudade!...
Que outros ouvidos, na delícia dessa voz?...
Que olhos confundem cada rua da cidade
A cada olhar que deles fazes e, a meus, sós?...
A que palavras saberei qual a verdade
Que, de meu peito, desfará todos os nós?...
E aquele odor que me entontece, a quem invade,
Enquanto invade a minha alma a dor atroz
De não saber onde navego nesse mar
Que é o teu sentir e que o silêncio torna imenso
E assustador p’ra minha fraca embarcação?...
Queria sentir que este sentir a que pertenço
Pertence, em ti, à explicação do que é amar,
E libertar, de vãos temores, meu coração!...
É o ar que vai na roda
Roda, ar, vida mata gente
Nem só faz mal o cigarro
Use um fato de bom corte
Tome ar puro antes que morra
Não deixe o bom pela lida
Pela vida vem a morte
Ar na roda, ela que corra
O ar é fonte da vida.
Nota: Este texto é uma “corrente”; pode ser lido em
ambos os sentidos, que também rimam entre si.
Um Sonho
Sonhava em certa noite, calmamente,
Que adormecera ao Sol, à beira-mar,
Co’as ondas sobre a areia a rebentar...
Ali me deleitava negligente,
E o vento, que soprava brandamente,
Corria a seu odor me ofertar
E, às ondas, fazia depositar
Na areia a espuma branca inconsistente!...
Mas sai-me ao sono a onda pela proa,
E faz-me do acordar um arrepio!...
O Sol não passa duma Lua Cheia,
Que brilha no Inverno de Lisboa!...
E eu sem entender, cheio de frio,
Porque é que dos meus bolsos cai areia!...
Corre da janela dos meus olhos,
Perdido do seu mar,
Esquecido do luar
Por me sentir,
Tentando, desesperado, colorir,
À luz da Lua,
Todos os recantos sem cor da minha rua!...
Por Ti
(à São Machado)
Por ti deixei a casa onde morava,
E se mudei de vida, foi por ti.
Por ti nunca mais fui onde encontrava
As ruas onde sempre me perdi.
Por ti achei que até nem precisava
Daquilo que p’ra mim sempre assumi
Como o melhor que a vida me emprestava
P’rá vida que vivia em frenesi.
Por ti pensei que tudo era um engano;
Que a vida só por ti tinha sentido,
Por ti, que eras o meu lugar de abrigo...
Mas tanto eu por ti me achei ferido!...
Senti que nem por ti eu me profano,
E que não posso mais ficar contigo.
Invade a minha casa uma luz a escorrer-te p’la pele nua...
No escuro dos teus beijos,
Apago o chilrear com que divido a paz da minha Lua!...
E acendo, na eterna solidão do meu sentir, imagens incoerentes
Que o Tejo não inflecte,
Dando à união dos nossos corpos a intensidade e a força das correntes!...
Rima a Rima
(à Gó)
Corrompe-se a minh’alma, a minha casa,
À extravagância que há na poesia
Que às vezes no meu peito tanto ardia,
E o corpo me queimava como brasa...
E assim, como desnuda a maré vaza,
Do mar, esses segredos que escondia,
Revela-se o amor de que fugia,
Fazendo dos amores vã tábua rasa...
A ti se dedicou meu pensamento
Ao descrever em verso sem pensar
O que era o meu sentir mas pretendia
Que apenas fosse um modo de acertar
Do peito, rima a rima, o sofrimento
Fingido por quem escreve poesia!...
A Poesia De Hoje
Hoje só há poesia
Em toda a escuridão
Que a Lua me irradia,
Na garrafa vazia
Em que o silêncio ecoa,
Naquela luz tão fria
Que cai sobre Lisboa,
Fazendo azul o dia
Da noite que se escoa
Da garrafa vazia
Em que o silêncio ecoa
Naquela voz sombria
Que a Lua me irradia
Em toda a escuridão
Que há hoje na poesia.
Teu
Tanto te vibra o corpo de prazer,
Quando me tocas louca de desejo...
E tudo sinto em mim a perecer
Ao fogo inigualável de teu beijo!...
Do teu se faz então o meu querer,
Mesmo quando o teu corpo mal adejo…
E ao teu abraço, que me faz perder
O Norte, submisso eu arquejo!...
Perdido, eu então em ti me perco,
E no fogo em que ardes me consumo,
Sentindo que nós dois somos reféns
Desta paixão, que eu só de ti me cerco
E, em ti, não sinto qualquer outro rumo,
Que não este destino onde me tens!...
Brilhos
Da noite chegam os brilhos
Fulgurantes que inebriam
E que meus olhos viciam,
Encaminhando-me aos trilhos
Que de antigos se perdiam
No fundo desta memória,
Onde o corpo dessa voz
É de meu querer o algoz,
Remetendo-me em glória
A um desejo que é atroz.
E porque longe de mim
Te sei, enquanto me habita
O desejo que me excita
Desse corpo que p’ra mim
É a coisa mais bonita
Que alguma vez pude ver,
Ingénuo cá me convenço
Poder deixar em suspenso
Por ti tão louco querer
A que há muito já pertenço.
Não Sei Se Devo
Não sei se devo
Dizer que minto
Quando não sinto
O que te escrevo;
Não sei se minto
Quando te escrevo,
Não sei se devo,
Não sei se sinto...
Sei que te escrevo
Que não te sinto;
Sei que te minto,
Sei que não devo...
Mas se te minto,
Sei que não devo
Dizer que escrevo
Porque te sinto!
Não sei se devo,
Porque te sinto,
Dizer que minto
Quando to escrevo...
Mas do menino era a vida
Por demais manietada,
Tantas vezes proibida,
Quando a mais apetecida
Sensação lhe era vedada...
Coisas simples de criança,
Naturais como o viver...
E ele então uma aliança
Fez na mais secreta esp’rança
De ter tempo p’ra crescer.
... e o menino que só queria
Ser menino, prometeu
Que a ninguém nunca diria
Do que tão triste sofria...
E o temido aconteceu...
Condenada a incerteza,
A compaixão, o sorriso,
A palavra dita à mesa,
O silêncio, a luz acesa,
A loucura ou o juízo,
O menino estarrecido
Foi tomando consciência
De a ter há muito perdido
Por ter sempre convivido
Co’as raízes da demência.
Em tal voar, no entanto,
Me embriago de incertezas,
Interditando-me ao pranto,
Que as luzes não vejo acesas...
Soçobram no mar revolto
O veleiro e a menina,
E o tempo mantém-se envolto
Em transparente cortina...
Volta a luz, o tempo amaina,
A borboleta morreu;
Volta o mundo à sua faina,
E a silhueta era eu...
Nele se instala infinito
E a poesia encantada
Do amor nos deixa dito
Que sem ele a vida é nada!...
Na Verdade, És Tão Bonita...
Meu amor, és tão bonita
Que, por mais vezes que dita,
Não me parece conter
Tão pobre frase a defesa
De tua imensa beleza
Que vejo e não sei dizer.
Na verdade, meu amor,
Infunde-me este torpor
Essa beleza infinita;
E nem sei como consigo
Dizer-te assim como digo:
Meu amor, és tão bonita!
Meu amor, és tão bonita
Que, de ciúme, se agita
A Lua que o mar transtorna
E remete a um desconforto
De tormenta tal que, ao porto,
Cada navio retorna.
O Vermelho das Casas
(ao Zé António)
Na brancura das casas não há drama,
Falsidade, revolta, dor ou morte...
Há um dia após outro e, muito forte,
Há o desejo da paz que se proclama.
No vermelho das rosas não há chama,
Nem amor ou paixão, azar ou sorte...
Mas há no coração do espinho o corte
De alguém que ama alguém que não o ama.
No negrume da noite não há dia,
Mas há vida e luar tal como antes
Desse amor que não há, e dessas casas,
E se então tal brancura enrubescia,
É que trocavam rosas os amantes
Que desse amar ardiam como brasas.
Na verdade, meu amor,
Em que palavra vou por
O que a palavra limita?
Posso dizer-te, porém,
Como não to diz ninguém:
Meu amor, és tão bonita!
Dor
(ao Zé António)
Sem ti de mim perdeu-se a poesia,
E os livros teus que encontro pela casa,
De os ler, a alma sinto mais sombria,
Como às marés na ilha de ti vaza.
O Sol que o teu sorrir sempre trazia
E o meu iluminava, é o que me arrasa
E faz sem ti, da ilha, uma agonia,
Que a ti, pássaro breve, fez sem asa.
Em mim sem ti só dor, dor e tristeza
Que, imensa, mal me deixa respirar,
E que não sou capaz de descrever:
Embarga-se-me a voz de te evocar.
Eterno, o teu lugar na minha mesa
E, por vazio, eterno o meu sofrer.
Sem Ti
(ao Zé António)
Há muito não me atrevo a descrever-te
A dor que tu bem sabes ter deixado
Cá dentro, que me tinha habituado
À vida cujo sentido era ter-te!
Há muito não me atrevo a percorrer-te
Os versos, que me faz amargurado
Saber p’ra sempre o teu livro fechado,
Que tão precoce foi este perder-te!
Há muito pouco que possa dizer-te
Que te possa dizer quão desolado
Está o peito, que me sangra por sofrer-te
A falta, que te foste, extraviado
Do sentido da vida, que é o querer-te
Aqui, eternamente, do meu lado!...
Louco Desejo
... noite escura...
Noite fria...
A sensação
Que perdura...
A emoção
Que arrepia...
É este louco desejo
Da perdição do teu beijo...
Enturbando a sua mente
Desfilavam-lhe as imagens
De quando ele era contente,
Que o tempo, por dissidente,
Transmutou em vãs miragens.
... e o menino ensandecia
De tanta dor que lhe deu
A vida que prosseguia,
Por maldade ou teimosia,
A negar tudo em que creu...
Memórias da sua escola,
E da hora d’ir p’rá cama,
E até da camisola
Que um dia, a jogar à bola,
Se sujou toda de lama...
Perpassam tantas memórias
Pela sua mente confusa
Que se misturam as histórias,
E a fronteira entre as glórias
E as derrotas é difusa.
... e o menino, que chovia,
Ao molhar-se, agradeceu
Na pele a sensação fria
Que outra vida lhe trazia,
E sequioso a bebeu...
A voz da sereia
Sobrepõe-se à Lua;
Perde a cor a rua,
Desmancha-se a teia...
Triste, nasce branco
O azul da praxe
No dia que nasce
Co’a morte de flanco.
De areia o castelo,
De sonho a princesa,
De vidro a turquesa,
A vida, um duelo.
O rio sem água
Corre até ao nada;
A rosa, encarnada,
Num viço de mágoa...
Sem areia a praia
Do castelo sonho...
Se ao mar a proponho,
Nela me desmaia.
E o branco do azul
Em espuma se torna,
E ao calor se adorna
A vida p’ra Sul.
... do menino em agonia
Que precoce envelheceu
Só restou a poesia
Do menino que nascia
Do menino que morreu...
Por breve da vida o termo
Foi de amigos a lembrança
Que ao menino fez enfermo,
Que a saudade é um lugar ermo
Onde adormece a esperança...
Mas a natureza vence
A tristeza quando invade
Alguém a quem não pertence,
E a tal sentir lá convence
Poder ser bom ter saudade.
... do menino que nascia,
E que devagar cresceu,
Só de olhá-lo se sabia
Que nunca se escreveria
Dele o que aqui se escreveu...
Devagar se faz a estrada,
Liberta enfim do desgosto,
Pelo Sol iluminada...
Nela por tudo e por nada
Se sorri como em Agosto...
Nos Mistérios do Mar
Entro nos mistérios do mar
Pela magia do teu olhar,
Enquanto a luz do teu sorriso
Me dá do Sol o que preciso;
No mais sensual de teus lábios
Leio a ignorância desses sábios
Que não beberam o luar
Nem se deixaram naufragar...
Quarto de Poesia
(ao Fernando Nascimento)
Anoitece na ironia
Do sonho em que me reparto
Por horas de fantasia,
Sem saber p’ra onde parto...
Mas da vida que é vazia
Nem por isso me descarto,
Agarrado à poesia
Que me deixaste no quarto...
Rosa
Diz-se do amor
Que é delicado
Como esta flor
A que, assombrado,
Sorvo o odor
A ti roubado.
Fá-la o que cala
Tão melindrosa,
Que te vou dá-la,
P’ra tu, extremosa,
Poderes tratá-lo
Como uma rosa.
De Meu Pulsar, Ao Leme...
De meu pulsar, ao leme, o teu perfume,
Desregrando-me o querer, que se agiganta...
Faz-me de ti tanta a vontade, tanta,
Que me vejo a sentir de mim ciúme!...
Tal querer que, ao sentir-te assim, se assume
Em meu ser, cuja alma te decanta,
É um sentir que até mesmo a Deus encanta
E, em meu peito, arde mais que o próprio lume!...
O perfume que é teu, de meu pulsar,
Segue ao leme e sou só desassossego...
Já de mim se perdeu todo o saber,
Pois já só sei ser escravo deste apego
Que me tem e, a Deus, fez encantar...
Já a ti se rendeu todo o meu ser!...
Palavras Pobres
(ao Pedro)
Descreio o dicionário que ultrapasso
Por do que sinto ser pouco o que sabe;
Se nas palavras que contém não cabe,
Seriam p’ra o dizer um erro crasso.
Transporto, de cada lugar que passo,
Odores e cores, sabores, louco arrecabe,
E pasmo a que tal mundo imenso acabe
Num dicionário imenso algo tão escasso.
Pobres palavras ricas de beleza,
Tão parcas de sentido e conteúdo
Se expor vos quero a alma e a lhaneza...
Entendimento é só o que é preciso,
Saber olhar e ver... E até um mudo
Declama o mundo inteiro num sorriso!...
Que te Dizer?
... que te dizer que já não saibas
De tudo aquilo que me invade?...
Que não há espaço onde não caibas,
Do que é teor desta saudade!...
No peito um ardor
Que quase enlouquece
Malhas do amor
Que o Cupido tece.
Estrelas
(à Zélia Frazôa)
Eu sinto a dor dum céu sem estrelas
E dói-me o espaço que medeia
As que cativo em fixa ideia
E o que falta para vê-las!...
30-01-2008 (13.55)
134
Anseio
Pedras no chão em que tropeço,
Errando as cores da natureza...
São, desta dor em que padeço,
A minha única certeza...
Há um vazio intenso em mim,
E um silêncio que me envolve...
São esta dor que não tem fim
Que só ao ver-te se dissolve...
Pedras, as cores em que me esqueço
Da natureza, errando a dor...
E um silêncio que não meço,
O som da alma em estertor!...
Toda a beleza que me cerca
De nada vale, não te vejo...
Que a dor de mim veloz se perca,
E tu em mim à beira-Tejo!...
10-05-2007 (20.30)
124
Embondeiro
Velho embondeiro seco
Testemunhando mudo
O nada que era tudo...
País tornado um beco
Aonde vive a morte
Em que se fez a vida...
Um beco sem saída,
Sem sombra que se importe
Com a alma de tal terra...
Em seu porte altaneiro,
Só o velho embondeiro
Seco a verdade encerra...
... e bela, doce, imensa,
Redonda e amarela,
Transvaza da viela,
Lasciva, uma presença...
Mistério que estonteia,
Feitiço que domina,
Luz vida que alucina,
Desejo em Lua Cheia...
132
Nada
Debalde busco o horizonte
No brilho opaco de marfim
Que cega e jorra dessa fonte
De nada que há dentro de mim
E que me encerra no vazio
Do infinito a que pertenço,
A vida presa só por um fio
Ao nada sempre mais intenso.
De nada ver demais cansado
Os olhos cerro em desalento
Ao mundo algures enclausurado
Nas tempestades que há no vento.
13-05-2007 (12.15)
126
Dói-me
(ao Bruno Monteiro)
Dói-me o teu olhar tão triste
Perdido no mar sem fim...
Sinto que de ti partiste
E em meu ver-te só existe
O teu estares longe de mim...
Dói-me o teu tão triste olhar
Que se perde sem me ver...
Percorre o sem fim do mar
Onde anseio o naufragar
Do que ele me faz sofrer...
Dói-me o tão triste olhar teu
Que ora no mar é perdido...
De teus olhares é museu
O mar que era o olhar meu
Sem o teu entristecido...
Tão triste olhar o teu dói
Do meu perdido que à sorte
Foi deixado e se destrói
Numa dor que me corrói
O ser que votaste à morte...
11/12-06-2007 (00.38)
130
Nada Além
Eu nada sou
De nada valho
Um falso atalho
Por onde vou
Sou o vazio
Um espaço branco
O verso manco
Do meu transvio
Sou o não ser-se
Se o ser-se é
Questão de fé
Sou o perder-se
Eu sou o nada
Tempo sem espaço
Onde repasso
Sem ver a estrada
Sombra banida
Que o Sol corrói
Dor sem herói
Carta esquecida
128
Sem Foz
(ao Zé António)
Silêncio em vez do som da tua voz...
Papel em branco em vez dum verso teu...
E solidariamente pereceu
A noite em que o luar éramos nós...
Estendeu-se o branco à noite em dor atroz
E o Sol, confuso, em si desapareceu
Com o teu sorriso, a casa em que nasceu...
Em meio à multidão estávamos sós,
E o teu olhar sorria para o meu...
Vazio, o teu lugar que me é algoz...
Chegar que nunca mais aconteceu...
Um som de passos... não!... Silêncio feroz,
E um guardanapo em branco em apogeu...
Saudade, um rio eterno que é sem foz...
12-08-2008 (03.24)
140
Memória
Feitiços que me embebem de Lisboa...
Já nada espero haver que nos redima!...
Pelo tempo segue a vida veloz, voa...
Busca p’ra cada passo a melhor rima!...
Tristeza que há na alma e que se entoa,
Evocação dos tempos da Muxima!...
Saudade que nos dói mas que é tão boa...
E nela prosseguir memória acima!...
Imerge e deixa o Sol no oceano
Réstia de qualquer coisa que não sei
Dizer, belo o seu tom, quase profano...
Pulsar feroz, antigo, vão, sem lei,
Sofrer que fortalece a cada ano
Que afasta esse futuro que sonhei!...
22-07-2008 (20.25)
138
Reflexo
A tarde arrastava-se silenciosa e vazia,
Prolongando-se interminavelmente,
Espalhando pelo ar aquela paz tão envolvente
Que pesava e se tornava doentia.
Eu via-lhe no rosto transtornado a vontade ardente
De poder desvanecer toda a agonia
Que era ainda alimentada pela monotonia
Exasperante de todo aquele ambiente.
Mas a tarde era fria.
Na sua quietude amarga e repousante,
No tempo que passava, lânguido e aliciante,
Ele sofria.
Ora à sua esquerda, ora à direita,
Cadenciadamente a sua sombra se movia;
O seu rosto era triste, mesmo quando ria;
Havia qualquer coisa ali mal feita.
Olhava-o fixamente. Mais do que via,
Sentia-lhe na alma uma profunda dor,
E fundo, nos seus olhos, um brilho de amor,
Enquanto ele andava, sem saber onde ia.
9
Dia Sem Poesia
(ao Zé António)
Devastadora é a tristeza deste dia
Que em vão percorro lentamente com o olhar,
Sem conseguir este meu pranto controlar
Que, ao calendário, falta a tua poesia!...
A minha vida tu deixaste tão vazia,
Como vazio, em tua ilha, esse lugar
Onde jardim eras das flores que, em seu murchar,
Estão a morrer de te não ter por companhia!...
Penosamente, torno ao velho calendário
E aos nossos dias que, agora, são só meus...
Num me revejo num furor incendiário,
Noutro prevejo a tristeza até de Deus
Que, por sentir-te ou para ser-me solidário,
Chora enredado no calor dos versos teus!...
31-03-2005 (13.17) (London)
23
Vida
O ar é fonte da vida
Sem o ar não há quem corra
P’ra lutar por outra sorte
Oh! Gente desconhecida
Não há-de haver quem socorra
Quem no ar encontra a morte
O ar na roda do carro
Tem matado muita gente
O ar vida nesta roda
Roda-viva que eu agarro
Sem ar não vive nem sente
Morrer, viver, está na moda
Vê na moda a vida ao ar
E o futuro a sorrir
Vê gente a viver feliz
Vida e morte é o ar que eu fiz
Não adianta mentir
Tudo se pode acabar
Cada vida que o ar poda
Isso prova que há um doente
Vigas de aço em chão de barro
11
O Tempo
Saltita, inalterável ao dinheiro
Que abunda em seu redor ou que escasseia,
A foice nunca ousando em seara alheia
Meter, como moeda em mealheiro!...
Saltita, e tanto faz se há nevoeiro,
E dele algum monarca se anseia...
Que importa se é cidade ou se é aldeia,
Se o dono é camponês ou marinheiro?...
Saltita, faça Sol ou Lua Cheia!...
Seu passo, inalterável e certeiro,
Escraviza subtil em sua teia
A vida!... E, do relógio traiçoeiro,
Alheio ao belo canto da sereia,
Saltita, inalterável, o ponteiro!...
20-03-2005 (22.20)
21
Paisagem Inútil
Debruçado na janela dos meus olhos,
Tento ver as cores da minha rua.
Nela ondula o Tejo, sensual,
Numa dança sedutora, irreal:
Corteja a Lua!...
Alongo o meu olhar à sua margem,
Que me apraz seguir-lhe o rumo,
A tal viagem!...
Desfile eterno de incontáveis vidas,
Transporta no caudal das suas águas
Tantas memórias,
Tantas histórias,
E a dor de tantas mágoas!...
É sem cor, a minha rua...
Nada vejo,
Que tão perto estou do Tejo,
Que o confundo,
Que o faço errar o mundo!...
13
O Sabor da Felicidade
Aveludado é o percurso morno e doce
Que me vicia em tua pele, onde deliro...
E bebo vida no odor que em ti respiro...
Talvez meu Norte fosse o mar se assim não fosse!...
Mas esse Sol que me aquecia enevoou-se,
Que de teu rosto, em vez de doce, sal retiro,
E, com surpresa, em tuas lágrimas me firo...
E até Lisboa, que é só luz, hoje apagou-se!...
O teu sofrer eu sofro então por ti aflito,
Numa agonia p’ra saber o teu porquê...
Nos teus mil beijos não sufoco a ansiedade!...
Tu docemente, c’o sorriso mais bonito,
Enquanto te olho a perscrutar-te de A a Z,
Dizes que são lágrimas de felicidade!...
27-02-2005 (23.27)
19
Rio Nocturno
Alinham-se à minha frente, no céu, Vénus e a Lua,
O Tejo que os reflecte,
E o chilrear dos pássaros com quem divido a paz da minha rua!...
Alinham-se na minha mente (e talvez também na tua),
Memórias e desejos,
E o gotejar da chuva que imagino a escorrer-te p’la pele nua...
Acende-se o desejo que me queima como brasa...
Que o Tejo não inflecte,
E logo após, mais além, acende-se uma luz naquela casa!...
No escuro quarto onde habita a eterna solidão do meu sentir,
Apago imagens e correntes,
Eliminando do meu mundo qualquer possível caminho p’ra fugir!...
E sinto, no silêncio que a interminável noite me consente,
Por entre histórias e beijos,
O insondável alvoroço que sempre induz em mim teu corpo quente!...
Desenham-se então à minha frente (ou desenhar-se-ão na minha mente?)
Paisagens incoerentes
Que se entrechocam e caem no suave curso do Tejo ao Sol nascente...
15
Em Maio
Em Maio
Mês de tantas flores
Ensaio
Tez de mil amores
Retraio
A vez doutros sabores
Lacaio
Preso às tuas cores
Desmaio
Se de mim te fores
Eu caio
Em mês de mil amores
E ensaio
Preso às tuas cores
Desmaio
À vez doutros sabores
E caio
Se de mim te fores
Em Maio
03-02-2005 (17.45)
17
Procura
Procuro-te os olhos, sorrio, e não os vejo;
Encontro-te o corpo, que o frio me sobeja;
Procuro-te os olhos no corpo que me adeja;
Encontro-te o corpo fremente de desejo;
Procuro-te os olhos lá longe, onde vicejo;
Encontro-te o corpo e Deus que me proteja;
Procuro-te os olhos nos meus, e que assim seja;
Encontro-te o corpo com o meu e é festejo;
Procuro-te os olhos por entre doce arquejo;
Encontro-te o corpo cansado da peleja;
Procuro-te o corpo que vibra a meu arpejo;
Encontro-te os olhos e a boca de cereja;
Procuro-te os olhos que abres num lampejo;
Encontro-te o corpo que o meu ‘inda deseja.
04-05-2005 (21.45)
25
O Centésimo Soneto
É dúvida o que às vezes sobrevém
Quando me sinto, ao ler-me, perplexo,
Que o que escrevi, daquilo que contém,
Quiçá que percentagem fará nexo.
A tal, porém, relaxo, que também
Na vida é tudo às vezes desconexo
Quando não sei se quero de alguém
Amizade, paixão, amor ou sexo.
Assim, que relativo é por conceito
Na vida tudo a que não sei fugir,
À dúvida, sorrindo, me prometo
As letras conjugar p’ra transmitir
Pela centésima vez, aqui no peito
O que me vai, em jeito de soneto.
16-08-2005 (12.04)
39
Nocturno
Cristalina, esta água pedra a pedra que se escoa,
Ressoando brandamente
Na noite silenciosa,
E me aconchega o corpo e a mente
No limite em que se alberga esta Lisboa
Que é de si orgulhosa,
E nela me emoldura a oriente...
Alucina, esta mágoa que em mim medra e se amontoa,
Ocupando lentamente
A noite tenebrosa,
E me renega, ao corpo e à mente,
O limite que me verga ou me perdoa,
E sorri gloriosa,
Singela criatura incongruente...
Vaticina, esta frágua que em mim redra essa pessoa,
Destapando a semente
Que a noite nebulosa
Me lega, ao corpo e à mente,
Que o limite que se enxerga se esboroa,
E eu vi cor-de-rosa,
Aquela vida escura permanente!...
08-05-2005 (23.54)
27
Logro
Veloz o barco,
Corre sem vela...
Eu nele embarco,
Que o peito em arco
Bate por ela!...
Corre apressado
O coração...
Entusiasmado,
Corro a meu fado!...
O barco não!...
Louca é a vida,
Que nos confunde...
Corre perdida
P’ra que, vencida,
Se não inunde
De sofrimento!...
Salto no cais:
Quase rebento,
Que tu és vento!...
Logo te esvais...
09-08-2005 (20.17)
37
Chegam os brilhos da noite
E inebriam fulgurantes
Os meus olhos como dantes
Que sucumbem ao açoite
Da visão dessas bacantes
Que me arrastam, despojado
Da lucidez, da verdade,
Do que visto e da vontade,
A um letárgico estado
Que me acalma a ansiedade
E a saudade me retarda.
Mas lentamente regressa
A mim, de ti, essa pressa
Que faz que o meu corpo arda
Ao teu olhar de promessa
Que a cada instante me assalta,
Inundando o pensamento
Que escravizas em tormento,
Tornando em dor esta falta
De ti que, em cada momento,
Me assola em modo tal,
Que da noite os brilhos chegam
Sem fulgor e me sossegam
De forma transcendental...
E quase que se despegam
29
O Corpo, a Mente...
No corpo ganha corpo o cansaço;
Na mente está o teu corpo presente;
E ausente está o corpo do abraço
Que o cansaço transforma em fogo ardente!...
Presente está na mente, de teu passo
Leve, o som que me enleva e torna quente
O corpo que o teu corpo a descompasso
Almeja como se fora doente!...
E voam finalmente pelo espaço
Cansaço, roupas, corpos e na mente,
O corpo ganha corpo de devasso
E não cabe entre os corpos, de repente,
A espessura do mais pequeno traço,
Assim tu foras rio e eu afluente!...
13-07-2005 (20.05)
35
Viagem
(a Ferreira Gullar)
Procuro-me a teu lado na viagem
Que fazes com a alma em turbilhão...
Mas não levas na tua a minha mão,
Que a alma te é cativa em tal voragem!...
Em vão anseio a primeira paragem,
P’ra me poderes levar no coração...
Mas nele é tal lugar outra ilusão,
Que o rio em que navego não tem margem!...
Quiseras tu levar-me na lembrança,
Nesse teu viajar que é infinito
E que infinito torna o meu tormento!...
Perdido em teu olhar, que é tão bonito,
Renovo p’rá viagem a esperança
De nela me levares no esquecimento!...
09-06-2005 (15.45) Alitalia Lisboa /Roma
31
Mas sei que sinto,
Quando te escrevo!...
Não sei se devo
Dizer que minto...
Só sei que devo
Dizer que sinto
Que não te minto
Quando te escrevo;
De como sinto
Quanto te devo!
Quando to escrevo
Nunca te minto!
Não sei se devo
Dizer que sinto,
Que não te minto,
Que não te escrevo,
Que não te sinto
Quando te escrevo,
Que não te devo
Dizer que minto...
Não sei se devo
Dizer que sinto,
Quando te minto
Que não te escrevo!...
33
Ligação
Diáfana sugestão
Duma esbelta silhueta
Efémera como a paixão,
Eterna nesta caneta...
Aragem, um arrepio,
No tilintar irreal
Que ressoa no vazio
E deixa um sabor a sal...
Silente em contemplação
Do esvair-se da ampulheta,
Do tempo em contradição...
Faz-se o dia violeta...
Inconciso o reposteiro,
Que o negro vai-se adensando...
Oscila como um veleiro
Que chega quem sabe quando...
Translúcida inspiração
De elegante borboleta,
Num voar onde a Razão
Se derrete na gaveta...
41
O Menino
... e o menino que corria,
De cansado, adormeceu,
Mal sabendo que fugia,
Por fadado ou ironia,
Da infância que perdeu...
De ser menino era o medo
Que a correr o instigava,
E aprisionava ao enredo
Dessa vida de degredo
Com que o sono o atormentava...
Muitas vezes o menino
Chorava por ter a sorte
De acordar mesmo no pino
Da tal vida ou desatino
Um momento antes da morte.
... e o menino que dormia,
A correr, reapareceu;
Mal sabendo o que fazia,
Fingia dia após dia
Que outro destino era o seu...
55
Desalento
Verde escura, sombria,
A mente obscurece
A garrafa vazia,
Que o desatino tece
E a alma fenece
Com potente mestria.
Noite escura, arrepia,
O que a mente padece
E, sobre a pedra fria,
O destino anoitece
A esperança da prece
A que o corpo tremia.
Vida escura que ardia,
De que a mente se esquece,
Que a garrafa inebria
E ao corpo enfraquece,
E o que permanece
É a dor doutro dia.
07-09-2005 (17.57)
43
A Poesia
Gélida a noite que cai
E dorme no meu cansaço
Da alegria que se esvai
Em cada lugar que passo...
Dorme entorpecida e esconde
A Lua, que adormeceu
O amor ninguém sabe onde,
Mais cansado do que eu...
Quase não dou pelo dia
Por fugaz, e permaneço
À espera da poesia
Em que da noite me aqueço,
Enquanto o cansaço dorme
E a noite, bem acordada,
Descobre uma Lua enorme
Redonda e alaranjada...
E o amor adormecido
Em que lugar, ninguém sabe,
Regressa e, desprevenido,
Encontra um verso onde cabe...
53
Na verdade, meu amor,
Enfurece-a o teu fulgor,
E ver que até o mar hesita,
De ti encantado, e quase
Soçobrando à minha frase
“Meu amor, és tão bonita”!
Meu amor, és tão bonita
Que de teu cabelo a fita
Julga estar no Paraíso,
Tal qual eu quando me dás
A imensurável paz
Contida no teu sorriso.
Na verdade, meu amor,
É teu sorriso o alvor
Que de mim toda a desdita
Doce, invariavelmente
Afasta... e grito contente:
Meu amor, és tão bonita!
Meu amor, és tão bonita
Que o meu coração palpita,
Carregado da emoção
De saber que sou pertença
Dum tal amor que dispensa
A mais sábia explicação.
45
O Amor do Poeta
Depauperado por descrito inenarrável
Ao dissecado pela caneta do poeta,
Pobre do amor feito da dor inigualável
De o inconter, sendo a noção dele inconcreta.
Caracterizado assim de modo admirável
Pecaminoso, inatingível, letal meta,
Pobre do amor que é frustração irrevogável,
De inincontrável no peito do falso asceta.
Em mim, porém, apenas incomensurável,
É perfeição, é uma beleza que inquieta,
E que contém, num equilíbrio inexplicável,
Em simultâneo à sua fórmula secreta,
Eterna contenção, explosão inadiável,
E o direito à explicação que ele me veta.
29-11-2005 (20.00)
51
Algoz
Angustiada a alma, arvora arfante
Animada aparência amotinada,
Ansiando apopléctica, acerante,
Amalgamar a alma à alma amada!...
Amor aflito assim, alucinante,
Asfixia a alma angustiada,
Aniquilando afectos, arrogante:
Acaba a amizade arruinada!...
A alma ausente, amargurada, anseia
Aprisionada à alma!... Aquela, alheia
Ao anelo, ao amor, ardendo apenas
Ao animal apelo, à anatomia,
Amanhecendo, afasta-se arredia,
Assinalando astuta as açucenas!...
18/19-10-2005 (03.09)
47
Única
Por seu modo de ser a mais singela
Que a vida ao meu alcance pôs, por sorte
Ou por de mim temer perdido o Norte,
Como o Norte se fez de tanta vela,
P’ra sempre a sentirei como a mais bela
Mercê divina sem a qual a morte
Melhor vida seria ‘inda que forte
Batesse o coração sem ser por ela.
E sendo tal sentir doce parcela
Que à própria vida serve de suporte,
Bem pode a vida pôr-me outra donzela
Defronte mais que bela no seu porte,
Que nunca haverá outra como aquela
Eterna que em meu coração aporte.
02-11-2005 (19.45)
49
... e o menino que fingia,
De fingir se arrependeu,
Já que era triste e vazia
Essa vida que vivia
E que, afinal, não viveu...
E ao menino surge então
De rompante, nua e crua,
Pela cidade em turbilhão,
Arrastada pelo chão,
A verdade que era sua...
Frágeis no menino eram
As certezas, de tão frágil
Por pequeno, que souberam
Alterar o que quiseram
No seu peito em modo ágil.
... e o menino que podia
Ter crescido, envelheceu
Tão depressa que sentia
Que da vida se perdia,
Qual manhã que anoiteceu...
Pobre menino perdido
Nos meandros duma guerra
Que o transforma em foragido
De si próprio, em confundido
Estrangeiro na sua terra!...
57
O Dia da Tua Partida
(ao Zé António)
Banhadas as mulheres em cheiro a rosas,
Como se a maldição as não marcasse,
Chora-te a alma como se cantasse
As páginas por ler, por odiosas...
Do Álvaro de Campos levas prosas,
Como se o “Infinito” não bastasse...
Da Vinci e, sem que o tempo a ameace,
Da mãe, contigo as estampas mais formosas...
Do pai, só o suor!... E fruta, e lenha...
Inalcançando o Sol, perseguirás
O invertido senso de teus anos...
Esquecido do adeus regressarás,
Que a promessa de ontem te desenha
Com as lágrimas dos dias mais profanos!...
13-02-2006 (19.00)
71
Pouco a pouco aquietou-se,
‘Inda qu’inadaptado
À nova vida a que o trouxe
A chuva como se fosse
Papel pelo vento arrastado...
Na convulsão da voragem,
Intimidado pelo mundo,
Decidiu ser de passagem
Tudo o que nessa viagem
Sentia ser mais profundo.
... e o menino que temia
O desejado apogeu,
Em grande choque tremia
Quando a tarde adormecia
E a dor o enlouqueceu...
No auge do verão foi esta
Transformação de raíz
Que, aterrado mas em festa,
E longe do que não presta,
Lhe permitiu ser feliz...
Vagueou tempos infindos
Por lugares indescritíveis
E viveu momentos lindos,
Uns eternos, outros findos,
Outros ainda os possíveis.
59
Mar Revolto
Praia sem areia,
Que é revolto o mar;
Noite sem luar,
Porém, Lua Cheia.
Navio à deriva,
Que o mar é revolto,
Como um verso solto,
A que a rima é esquiva.
Casa sem parede,
Sem chão e sem porta,
Como a sede é morta
Por morta de sede.
Odor do perfume
Dum jardim sem flores...
Definham amores,
Escravos do ciúme.
Noites sem dormir,
Com dias sem Sol;
E do rouxinol,
O canto a ruir...
69
O menino, volta e meia,
Abre os olhos e a luz,
E é escuridão que incendeia...
E o sofrer que se receia
É ao que ele nos induz.
... e o menino que crescia,
Porque apoiado, aprendeu
Que caminho não devia
Percorrer, se percorria
Caminhos como os que leu...
29/30/31-12-2005/01-01-2006 (16.45)
61
Mar de Promessas
Sob um Sol radioso e quente,
O mar
Ostenta toda a sua beleza,
Confundindo
O verde com o azul,
Enquanto o imaculado da espuma
Se desvanece
Como as promessas...
04-02-2006 (11.57)
67
Esta Lisboa!...
Do voo do flamingo,
É a saudade
P’rá qual não há Domingo:
Só a verdade...
Vinte e dois de Janeiro:
Falta o calor
E o velho embondeiro,
A acácia em flor,
E a percepção do nada,
Subitamente,
Anúncio da chuvada
Chegando quente...
P’lo vermelho da terra,
Pela calema,
Por tudo em que se encerra,
Se fez poema...
É sangue que Deus chora
No fim da tarde,
E dele a terra cora
E a alma arde...
63
Quero Fechar os Olhos e Não Ver
Quero fechar os olhos e não ver
Todos esses lugares aonde estive...
Deixar-me calmamente adormecer
À sombra dum passado que não tive...
Abrir depois os olhos e saber,
Dessa vida passada, que não vive...
Deixar que seja intenso o meu viver
Como intenso da vida me contive...
Quero fechar os olhos e não ter
Nunca mais as visões que anos retive...
Abrir os olhos e compreender
Que é plano o que era imenso declive...
Deixar a longa noite amanhecer,
E que um pouco de paz se perspective...
29-01-2006 (04.37)
65
Tristeza
No branco estilhaço
Da tarde vazia
Renasce sombria
Num brilho de aço,
Na rua onde passo,
Uma Lua fria
Como garantia
De dor e cansaço...
Copo quase meio,
Lua quase cheia
E a noite, dei-a
A quem nunca veio...
O corpo, cansei-o,
Que vida vai meia
E a tristeza, sei-a
Minha por sorteio...
15-02-2006 (23.34)
73
Príncipe do Nada
Triste príncipe do nada,
Desmantela-se em farrapos
E com nada se confunde...
Ser humano em derrocada,
Esburacado como trapos,
Transparente... Que se afunde!...
Não tem lágrimas nem face,
Nem sorriso nem olhar,
Nem tristeza ou alegria...
Espera que a vida lhe passe,
Letal vício a enfrentar
Por todos com apatia!...
De si perdido e do mundo,
E por tal mundo esquecido,
História de si mal contada,
É num discurso profundo,
Por sarado, enaltecido,
Triste príncipe do nada!...
17-06-2006 (18.43)
87
Em tons de cinzento
Não se pode ver
O imenso prazer
Da chuva e do vento.
Festas, desinteresse,
Vícios de cidade,
Que a velha saudade
Não se sente: lê-se.
Em tons de marfim
Sorriem petizes,
Desmaiam matizes
Por velhos, enfim.
Entra um novo tom
Sem escala e sem cor,
Tal qual o amor
Se traduz sem som.
Em tons de azulejo
Se percorre a noite,
Que o melhor tom foi-te
Roubado num beijo.
23-02-2006 (00.00)
75
Tudo
Tudo é muito vago
Tudo é o que se quer
Está tudo num trago
Ou numa mulher
Tudo é mais que muito
Tudo é muito pouco
É tudo um circuito
Que me deixa louco
Tudo é ficção
Tudo me pertence
E é tudo esse não
Que não me convence
Tudo é muita calma
Tudo é muito ardente
Está tudo na alma
De corpo presente
Tudo me aborrece
Tudo me estimula
E tudo parece
Que se coagula
85
Sonho-te o odor, perdido
O Norte, que um oceano
De emoções torna sabido
Que o que sabia era engano.
Sonho-te o abraço louco
De paixão, onde prevejo
Enlouquecer pouco a pouco
No louco ansiar-te o beijo.
Sonho-te o beijo, agonia
Em que naufrago, poema
Que Deus terá escrito um dia
Por crê-lo divino tema.
Sonho-te o olhar, feitiço
Que do meu sonho me faz
Perder-me, e sonho por isso
Que sonhar-te a mim te traz.
Sonho-te o corpo perfeito
Quando adormeço cansado
De sonhar-te, insatisfeito
De te não ter a meu lado.
Sonho-te a alma cativa
Do meu amor, e festejo
Seres, enfim, minha tu, diva,
Que me afogas em desejo.
77
Branco
(ao Vinicius de Moraes)
Trilhamos lado a lado a branca areia...
Os mistérios do mar fundem-se ao teu...
Rendido a vosso odor, que torno meu,
Vejo uma Lua branca surgir Cheia...
E essa branca pele que me incendeia
Estremece, adivinhando em apogeu
O meu desejo... e logo te é o céu
O horizonte... O mar é melopeia,
Em seu a nossos pés, branco, frustrar-se...
Atlântica explosão carmim!... Brancura
Que tudo veste, assim como um disfarce...
No céu, imensa, branca, vê a Lua
Em mim, do mar, melodia que perdura,
Estendida tu na areia branca e nua...
21-04-2006 (22.09)
83
Em Ti Navego
(à Sónia Ribeiro)
Enfeitiçado pelo olhar profundo
Que no meu depositas, belo, intenso,
Coração a galope, arquejo e penso
Como pode esse olhar conter-me o mundo!...
Inebriado a teu sorrir, infundo
Em teu olhar noção do mar imenso
De ti em que navego, que é já denso
Este jovem amor de que te inundo!...
Levito a teu abraço que promete
a meu descrer, eterno, o sublimar,
E a alma me corrompe no desejo
De ceder-te ao querer, ao desejar,
A que o corpo há já muito se derrete,
Devassado pela força do teu beijo!...
10-03-2006 (23.15)
79
Arde
(ao Zé António)
O pássaro morreu!...
Arde imensa a saudade
Como antes ardeu
Mudo sobre a verdade
O Sol desinteressado!...
O silêncio foi triste
Ao cair sobre o prado,
Como o azul que desiste
Da vastidão do céu!...
Viu num rasgo uma Lua,
Qual breve fogaréu,
E confundiu-se à rua...
Nunca ninguém o soube
Mas nesse céu sem cor
De repente não coube
O pássaro em estertor...
Arde a saudade imensa
Em mais um fim de tarde
Por sob a indiferença
Dum Sol que apenas arde!...
11-04-2006 (19.07)
81
Amor Perdido
Silenciosa a tarde, vã, vazia
Como a funesta alma, que partiste...
E o estio intenso, errante, é mais um dia
Do álgido sentir que me faz triste!...
E este amor sozinho é ironia
Que me ofertou a vida, que persiste
Em nos fazer do amor desarmonia,
Que o teu, eterno, ao meu, já não assiste!...
Eu, que infinito o li, e me rendi
A seus encantos, tanto, e me perdi
No enleio com que em mim te aprisionou,
Perdido o vejo agora eu de ti,
E dele prisioneiro, eu aqui
Me vejo sem saber p’ra onde vou!...
25-06-2006 (18.35)
89
O Teu Nome
(à Marisa)
Insistente sentir que em mim se giza,
Sempre além do que posso definir...
Em mim, perturbador, sinto o fluir
De qualquer coisa vaga, imprecisa...
Sem nome tal sentir, se se ajuíza...
Porém, sinto-lhe a força, o progredir...
Não sei se incorporá-lo, ou se fugir,
Que a sua origem já se me divisa...
A cada vez que o teu nome se frisa,
Percebo em mim, voraz, num eclodir
Recidivo, a procela que era a brisa
Leve, berço de teu doce existir!...
Gizado um tal sentir por ti, Marisa,
Não sei se dele posso prescindir!...
23/24-08-2006 (00.20)
103
Do Que É Teu
Esvaece-se-me o júbilo decrépito
Por divisar-te o modo insensitivo,
E quebra-se-me o querer que cri, com estrépito,
Excelso, imensurável, não cadivo...
Soçobra-se-me o tom de cariz lépido
Mas, venerável vício, recidivo,
É o que veloz do álgido faz tépido
E, a meu saber, faz vago, inconclusivo...
Evola-se-me célere a incerteza
Pelo clamor veemente deste apego
A minha alma à tua manter presa...
E exala-se-me o susto, vão temor,
De que o sentir que me é desassossego
Do teu não fosse um mero embaixador!...
26-06-2006 (23.05)
91
És num olho a paixão
Que o poeta imagina...
No outro és a Razão
Que o amor desatina...
Um olho devaneia,
Em sonhar enlevado...
Mas o outro receia
O que não é passado...
Num teu olho és entrega
A um sentir que arrebata...
O outro quase a nega,
Que o medo o acicata...
Quando, porém, te deixas
Em teu mundo perder,
Vão-se afogando as queixas
No mar de teu prazer...
Tufão devastador
Em mim, teu olhar doce...
Até o próprio amor,
Perante si, curvou-se...
E em amor curvado
A ti, teu mundo inteiro
Sucumbe inebriado,
Cativo de teu cheiro...
Eis-te a olhares-me, enfim,
Derramando, irrestrito,
Ardente amor por mim...
E é no infinito
101
Inútil
Quão vão sofrer sofri e sofro, e sei
Que sofrerei em vão, o peito cheio
Do vão rancor que se fará, eu sei-o,
Em minha vida vã razão e lei!...
Intermináveis, vãos, eu chorarei
Mil prantos secos, de tanto que odeio
Sentir que o vão rancor é o recheio
Da vida vã a que me habituei!...
Quão vão doer doeu e dói, é rei,
É lei, eu sei, tudo o que eu sei, que leio
Em tudo, e tanto, que já destrocei
No peito um coração que um dia veio
Em vão, tão de mansinho que chorei,
Dizer-me do amor: Morreu! Matei-o!...
19-07-2006 (23.55)
93
Trago Rosas
(à Sandra Fernandes)
No regaço da minha história
Trago rosas que não colhi...
São dos espinhos em que me feri
Quando me eras na trajectória
Do caminho onde me perdi...
No cansaço desta memória
Trago livros que nunca li...
São da vida onde então me vi
Mero efeito de venatória
Fantasia que não escrevi...
Cada passo, eliminatória
Que num trago amargo venci...
Trago rosas que não previ!...
Fiz de espinhos cada vitória
No caminho que percorri!...
E no espaço sem divisória
Em que trago o meu estar aqui,
Olhas o corpo onde vivi
Cada rosa revogatória
Do caminho que leva a ti!...
08-08-2006 (20.07)
99
No mar a calmaria
Dum coração secreto
Que me faz circunspecto
Ao que se prenuncia...
O mar, encanto meu,
Navega-me encantado
Por por mim decantado,
Por tanto encanto o seu...
21-07-2006 (00.00)
95
Não Te Amo
Não te amo!... Gosto de ti, mas não
Te amo!... Alguma vez te amei?... Não sei,
Penso que não!... Fiz-to pensar?... Errei!
Fi-lo sem querer, se o fiz!... Não quis!... Paixão?...
Também não!... Foi, quiçá, admiração
Pelo teu amor eterno!... Nunca encontrei
Nenhum até ao dia em que te dei
Ouvidos!... Mora agora num caixão
Negro, putrefacto... Pobre do amor,
Eterno cadáver da alma humana!...
Mas não te amo!... Estou salvo!... Que horror,
O amor!... Que lindo é!... E mesmo assim,
De fora, devora!... O amor profana
A alma!... Mas eu não te amo!... E fim!...
25-07-2006 (23.30)
97
Imenso
O odor intenso no teu lenço, eu penso
Ser jasmim. Despoleta em mim um ror
De sensações. P’ra mim, é o teu odor.
O odor do amor imenso pelo qual venço
O mar profundo, o mundo, e me convenço
Que o senso és da loucura do autor
Que cria e fantasia cada cor
Que há neste amor por ti a que pertenço.
Ocultas-te num sorriso de incenso,
Odor propenso ao teu tornar na dor
Da tu’ausência, demência que tão denso
Faz o viver. Eu, denso ou como for
O venço, e sinto intenso o odor do lenço
Que jasmim penso e, em mim, é imenso amor.
12/13/14-09-2006 (01.49)
105
Tormento
(à Florbela Espanca)
De dentro do meu peito o amor imenso
Por ti que me preenche recolher,
E nesse mesmo instante perceber
Que é nada todo o resto a que pertenço.
De mim esta paixão de fogo intenso
Por ti que me incendeia esmorecer,
E nesse mesmo instante conhecer
O nada em que se faz tudo o que penso.
É falso o que então escrevo, sem verdade,
É oco, é pó, fingido, é aparente,
Engana, oculta, esconde, em erro induz...
Pudera eu dizer o que é saudade
E todos saberiam o que sente
Aquele que do amor carrega a cruz!...
09-03-2007 (19.46)
119
Morreu
... parou!... O coração parou!... Morreu!...
Cansou-se de existir em permanente
Desacerto!... Dissipou-se, dolente!...
Desatinou!... Foi um ar que lhe deu!...
Parou!... Finou-se!... Desapareceu!...
Permaneceu o mundo, incongruente
Desconcerto!... Manteve-se, irreverente!...
O coração, esse, parou!... Desceu!...
Apeou-se!... Renunciou!... Descreu!...
Malogrado, desgraçado, doente...
Indiferente, o mundo permaneceu!...
... parou!... O coração parou!... Doeu!...
Cansou-se de existir em insistente
Padecer!... E parou!... Morreu!... O meu!...
11-10-2006 (22.42)
107
Ser-se Vida Sem Paixão
Flor incolor, água sem copo, vivo
Temor da morte, é vil a sorte, digo
Que existe o Céu na Terra e não consigo
Ver em ninguém um gesto afirmativo.
E veste a morte um traje disjuntivo,
Fingindo camuflar-se sob o perigo...
Vinho, indolor viver de pão sem trigo,
Um sofrimento em modo cognitivo.
Sombra da luz dum Sol que é transparente
Sob o que nada é, alguém doente,
E mais um sentimento em erosão,
Como um velho conceito decadente,
Pernicioso, eterno e contundente,
Que esbarra em ser-se vida sem paixão.
06-03-2007 (01.10)
117
... dos pássaros o canto morre e fria
A tarde se tornou, que anoiteceu...
Outubro, lentamente, aconteceu,
Manteve-se-lhe a vida vã, vazia...
E ante essa tristeza no olhar
Que é fruto de tão longo sofrimento,
Ondula num vogar fruto do vento
Seu pranto que, de tanto, se fez mar...
Aos pés do triste olhar, um barco morto
Velho, restos de quem já se finou,
Encarcerado no que não pescou...
E foi, de todos, este o melhor porto!...
... fim duma vida triste... e já Novembro
Promete uma vidraça que ressoa
À chuva a que reluz, bela, Lisboa...
Na mente o olhar dela que relembro
Eternamente triste na parede,
Deixado ali esquecido, ou por engano,
E onde se divisa um oceano
Ser parco p’ra matar-lhe a longa sede!...
10-09/25-10-2006 (23.40) Neumunster/Lisboa
109
Ideia Fixa
(à Marisa)
Em teu afago morno e envolvente
(louca ilusão na qual eu permaneço)
Permito-me embalar-me e adormeço,
Sonhando-me a sentir-te o beijo ardente...
E logo se me acende a alma e sente
Que o meu coração corre e enlouqueço
De mim perdido e só, sem endereço,
Que o mundo por sem ti me está ausente...
Desiludo-me então dessa carícia,
E logo o sono é um sonho incolor...
E em suave acordar sem ti por perto
Torno ao meu desejar o teu amor
Que o sonhar-te é constante, é dor, sevícia
Que castiga ‘inda mais se estou desperto!...
27-02-2007 (21.10)
115
Sentir
(à Marisa)
De mim já por perdido me despenho,
E alucinado o mundo vejo arder.
Há um sentir que em mim eu não contenho
E em meio a tal ardor me faz tremer.
É um sentir assim tão sem tamanho
Que não sei de palavras p’ra o dizer.
Na vida és o maior valor que eu tenho
E a vida nada é se te perder.
Ao ver-te nem sequer sei donde venho,
Pois o que fui sem ti não era ser.
E se o futuro invento num desenho,
És sempre tu que vejo aparecer.
É tanto este sentir que, em seu engenho,
Me fez tudo fazer para te ter.
06-12-2006 (17.20)/10-01-2007 (23.54)
111
Aberração
(ao Pedro)
Ser criatura vil humanidade
Pecado torpe alguém como se é,
Como se sabe ser sociedade
Por vício a apatia e um café,
Inerte ao corrupio da cidade
Que passa ou por quem passa a falha fé,
Ermo lugar angústia da verdade
A aberração do lar num cabaré.
Mórbido incônscio agoniado estulto
De si tão só por ser verdugo, algoz
Se faz também do que o mantém, porém,
Tal qual um rio que perverte a foz
Desagua no mundo e dele um vulto
Se faz que o não liberta nem sustém.
10-02-2007 (19.23)
113
Ode
Peito em alvoroço
Sorriso de Lua
Colar no pescoço
Feitiço na rua
Andar sensual
Olhar que arrepia
Odor imoral
Fogo em que eu ardia
Dorso de gazela
De vespa a cintura
Suave aguarela
Sonho que perdura
Longo é o cabelo
A pele de cetim
E forte o apelo
Que há dentro de mim
A voz uma chama
Os braços de hera
Alma que reclama
Mais que uma quimera
121
Percorre-me a Saudade
Percorre-me a saudade que reclama
Sentir de novo a noite que preferiu,
Aos astros que há no céu, a tua cama
E a ti tornar-te o mar deste meu rio...
A noite é-me o arder naquela chama
Em que ostentaste a força do teu cio...
E o dia é onde mais e mais se inflama
O querer tornar a ti e ao desvario...
Desejo que me impregna e se proclama
Num corpo que é vulcão bem mais que estio...
Vontade que se acende e se derrama
E me enche de prazer este vazio
A que retorno, escravo duma trama
Que faz de ti destino e o seu extravio...
02-02-2008 (00.03)
135
Eu Não Sabia
(à Marisa)
Eu não sabia que era tanta a dor
Duma resposta em branco, um lugar vago
À mesa, a tal canção sem coro, a flor
Que não tenho no quarto, ânsia que trago
E que me exaure assim como um ardor
Que aos poucos me consome, ou como um lago
Tranquilo onde me afogo em estertor,
Na ilusão daquele antigo afago...
Como areia entre os dedos, o meu mundo
Se dissipa e do mar que me era estrada
Faz perdido e perdida a mim me traz...
Para além desta dor, imenso, o nada
Que de tudo se fez, e tão profundo,
Que no fundo de si a vida jaz!...
09-04-2007 (20.45)
123
Há um embondeiro velho
Que seco presencia
Tristeza e alegria
Ateísmo, Evangelho,
Amor, desunião
A guerra, uma cidade
Que morre por maldade,
A dor, dia sem pão...
Velho embondeiro triste
E seco, amargurado
Pelo menino amputado
De que a infância desiste...
... e bela, imensa, doce,
Amarela e redonda,
Feroz como se a onda
Maior do mundo fosse,
A Lua é um veleiro
Que navega um país
Onde é o ser-se feliz
Memória de embondeiro...
... pobre embondeiro rico
Das mágoas de tal história
Que lhe ardem na memória,
E onde a minha é um salpico!...
133
Quimera
Pudera eu contar um’outra história
De harmonia, paz, ternura, amor,
E os sonhos não teriam o sabor
Desta tristeza eterna na memória!...
Soubera eu mudar a trajectória
Desse futuro antigo, eterno horror,
E não seria a vida um dissabor
Com a morte dela a única vitória!...
E sobram desalento, prantos vãos,
E silêncios que são como punhais
Numa vida perdida, vã quimera...
Negros dias de noites infernais
E sentir o calor daquelas mãos
Como se eu entre as minhas as tivera!...
11-05-2007 (01.42)
125
Inalcançável
(ao Zé António)
Ouço-te o silêncio em chamas
Visto-te o tocar ausente
Sofro-te o olhar vogante
Sinto-te mil diagramas
Inatingível poente
Vida que é sempre a jusante.
20/26-06-2007 (20.26)
131
Sem Futuro
Dissipa-se-me a alma contristada,
Extingue-se-me a voz, vacila o tino,
Encurta-se-me o tempo, cresce o nada,
E nada é o meu futuro de menino...
Despenca-se-me a vida amargurada,
Acende-se-me a noite e o destino
Desfaz-se-me em verdade consumada
Num fim que nunca vi tão repentino...
Cai o silêncio aos poucos sobre o espaço
Onde cabia um mundo de ilusões
E escuridão é tudo o que se vê...
Só permanece eterno este cansaço
Dum mundo que prossegue aos tropeções
Em direcção a um nada sem porquê!...
02/03-06-2007 (21.10)
127
Falso brilhante
Um filme mudo
Sem conteúdo
Nada adiante
Sou sem sentido
Falsa existência
Falha experiência
Ser indeferido
Nada sou eu
Alma vendida
Sopro de vida
Que se perdeu
Estrada infinita
Nenhum lugar
Mundo sem ar
Morte predita
Um’outra terra
Som sem tamanho
Branco desenho
Mundo sem guerra
Um nada além
Do conteúdo
De sendo tudo
Ser-se ninguém.
05/06/11-06-2007 (01.04)
129
Uma Tarde Em Lisboa
Vaguear-se a Lisboa luminosa
Num querer-se-lhe a alma fugidia,
E é sorrir-se não mais do que a agonia
De abraçar-se o perfume duma rosa.
Soletrá-la na tarde majestosa
Devassando-lhe as cores e a magia,
E é saber-se afinal melancolia
A alegria que a verte misteriosa.
Tactear-se-lhe o corpo rumo a casa,
Transbordante no peito um Tejo em nó
Que se agita inquieto pela foz,
E é sentir-se que é bom não se estar só
E poder a emoção, que arde qual brasa,
Serenar-se à lembrança duma voz.
10-07-2008 (01.10)
137
Mar, Infinito Amor, Mero Estilhaço
Mar, infinito mar, profundo, amigo,
Unindo em dor, interrompendo abraços,
Delimitando amores imensos, escassos
Momentos venturosos de eu contigo!...
Ao infinito mar, profundo, eu digo,
Unido em dor a inquebrantáveis laços,
Eternizando o amor, que venço os espaços,
Tão tortuosos se não estás comigo,
Que nos impõe de seu bravio abrigo,
Que é, afinal, tão só o descompasso
De de si ser perdido e inimigo
Por do ciúme escravo... É o embaraço
De, imenso, o seu poder lhe ser jazigo,
E o ser do infindo amor mero estilhaço!...
28-07-2008 (23.05)
139
Nota dos Organizadores
Trata-se esta obra duma pequena antologia que compreende, para além de textos já incluídos em trabalhos anteriormente levados a cabo, designadamente, "Enquanto Espero" e "Cem Nexos", poemas que farão parte do livro "+ 100 Nexos" a publicar brevemente e, ainda, vários textos inéditos, podendo alguns dos quais, no entanto, ter já sido lidos no site "Varanda das Estrelícias - Uma Ponte Sobre o Atlântico", página pessoal de Joaquim Evónio.
"Trago Rosas" é uma selecção carinhosamente preparada com o prioritário intuito de corresponder de modo positivo ao convite gentilmente efectuado ao Autor pela "Associação dos Amigos da Mulher Angolana" (AAMA) para participação no evento de divulgação cultural "Ressonâncias Poéticas da Diáspora" a ter lugar em Lisboa no dia 5 de Outubro de 2008.
Posteriormente foi preparada uma segunda edição para de igual modo poder corresponder ao convite da FNAC Madeira e da AMIMAR, Associação de Música e Artes dos Arquipélagos, para apresentação da obra em 22 de Maio de 2009 no âmbito da Feira do Livro do Funchal.
Esta terceira edição nasce na sequência do convite efectuado pela Sofia de Almeida para apresentação da obra no seu espaço “As Escolhas de Sofia” no Largo da Academia das Belas Artes, nº. 5 em Lisboa, em 17 de Julho de 2009.
Embora se incluam nesta antologia poemas que são fruto de diferentes períodos da vida do Autor, poder-se-á afirmar que a maioria se reporta à que se pode considerar até ao momento a sua época mais prolífera - 2005, 2006, 2007.
Deixemo-vos, então, odorando as rosas trazidas pelo Carlos Martins.
TRAGO ROSAS
Edição: de Autor
E-mail: antoniocarlosmartins@yahoo.com
Autor: Carlos Martins (António Carlos Amaral Martins)
Organização e Projecto Gráfico: Carlos Martins, Silvana Urzini
e Marco António Gonçalves
Capa: Marco António Gonçalves (pormenor dum trabalho utilizando técnica mista)
3ª. Edição: Julho de 2009 (1ª. Edição: Outubro de 2008; 2ª. Edição: Maio de 2009)
Impressão: Papel de Relevo – Artes Gráficas, Ldª.
Depósito Legal: 282724/08
ISBN: 978-989-95953-2-3
Edição: 100 exemplares
Agradecimentos: Silvana Urzini e Marco António Gonçalves
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