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Decio Bettencourt Mateus - MinhaAngola

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Décio Bettencourt Mateus

Décio Mateus Blog
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Os Meus Pés Andantes

Os meus pés andantes
Procuram a palanca real, palanca negra
E desencantam as quedas de Kalandula
Quedas da minha terra
Oh é bela Angola
É bela Angola e são felizes os meus pés caminhantes

Os meus pés empoeirados
Acariciam subsolo rico, ouro negro a jorrar no alto mar
Ouro negro a jorrar no offshore
E no onshore
Ouro negro a brotar
Das entranhas do mar, para os meus pés esfomeados!

Os meus pés garimpeiros
Apalpam tesouros e mais tesouros
Minas de diamante, ferro, cobre, prata, ouro…
Debaixo dos meus ásperos
Minas de diamante debaixo dos meus pés maltratados
Debaixo dos meus pés esfomeados

Os meus pés camponeses
Galgam a terra, terra boa de agricultura
Terra boa de verdura
E farta de feijão, mandioca, milho, batata…
Terra boa, terra farta
Debaixo dos meus pés famintos e felizes

Os meus pés pescadores
Banham-se em mares ricos
Mares de garoupas, corvinas, carapau, mariscos…
E mergulham em rios fartos, Kwanza, Kubango
Keve, Bengo…
Águas fartas a banharem os meus pés sofredores

Os meus bolsos vazios
Vêem outros bolsos vazios aterrar desnutridos
E depois, bolsos cheios
A levantarem voo, a embarcar abastados
Bolsos cheios a embarcar com sorrisos
A embarcar abarrotados, oh que paraíso!

Os meus pés descalços
Clamam por migalhas, clamam por pedaços
Os meus bolsos vazios
Não clamam por milhões, não clamam por rios
Os meus bolsos vazios e os meus pés famintos
Clamam somente por migalhas, de alimentos!

In, Os Meus Pés Descalços

As Mãos de Mãe

As mãos. Mãos calejadas
E enrugadas
Mãos precocemente envelhecidas
E endurecidas
As mãos sofridas da mulher
Cansadas de sofrer!

As mãos. Mãos molhadas
E húmidas
Toneladas de roupa no tanque
À espera das mãos trabalhadoras
E sofredoras
Toneladas de roupa à espera num qualquer musseque!

As mãos da mãe. Mãos outrora finas e delicadas
Agora maltratadas
E calejadas
A roupa, o tanque, a cozinha, a lida da casa…
E as mãos cansadas na sua beleza
As mãos na sua aspereza!

As mãos da mãe. Mãos enrijecidas
E endurecidas
Mãos ásperas travaram longas batalhas
E exibem as medalhas
Exibem os calos das batalhas travadas
Os calos das mãos. As mãos da mãe outrora delicadas!

As mãos. As mãos da mãe trabalham a terra
Com vigor e garra
As mãos trabalham, o suor corre
O suor escorre
As mãos cultivam os produtos, cultivam o milho
As mãos calejadas alimentam o filho!

As mãos da mãe. Mãos ásperas sem instrução
Mãos sem escola, sem preparação
Trabalham duro
E preparam o futuro
As mãos sem escola vão formar doutores e engenheiros
As mãos sem escola vão formar cérebros!

As mãos da mãe. Mãos lindas plantando rosas de amor
Mãos lindas plantando um mundo melhor!

  in, Os Meus Pés Descalços

A Zungueira

O miúdo nas costas, faminto
O sol queimando
O sol assando
O miúdo nas costas, faminto de alimento
As moscas acariciando-o
E o lixo distraindo-o!

A zungueira zunga, cansada
Na cabeça, o negócio e o sustento
E nos pés empoeirados
O cansaço dos quilómetros galgados
O cansaço da distância percorrida
A zungueira zunga, o miúdo nas costas faminto!

A zungueira zunga, cansada
E vai gritando e berrando a plenos pulmões:
Arreou, arreou, arreou nos limões...
A zungueira zunga, empoeirada
E arreia o negócio, arreia o preço e faz desconto
Arreia o preço do sustento

O miúdo nas costas faminto
A lombriga na barriga rói, a lombriga pede
O miúdo nas costas, faminto de alimento
Chora e berra
Não é birra
É a fome que aperta, é a fome da sede!

A zungueira zunga, apressada
E arreia o negócio, arreia o preço:
Arreou, arreou, arreou no chouriço...
A zungueira zunga empoeirada
E arreia o preço do negócio
Arreia o preço da mercadoria, coisas do ofício

Depois, a viatura da fiscalização
Os travões chiam, as marcas dos pneus no asfalto
E os homens arrogantes a perseguirem
E a baterem
E a zungueira a fugir, e o negócio e o sustento
Caídos, espalhados no chão!

Depois vem o fiscal, também faminto,
“Você tem autorização?
Acompanha, isso é transgressão!”
A zungueira implora e mostra a fome:
Tem dois dias o miúdo não come
A lombriga na barriga precisa alimento!

O fiscal, também faminto
Arreia o lucro da zungueira cansada
E desesperada
Arreia o lucro, senão a zungueira vai presa
Senão a zungueira não volta a casa
E a zungueira cede, com medo no pensamento

Depois a zungueira chega a casa
De bolsos vazios, mas alívio no coração
E grata, afinal não foi presa
Afinal não foi à prisão
A zungueira chega a casa, o miúdo faminto
O miúdo sedento de alimento

Mas amanhã, a zungueira voltará a berrar
Amanhã a zungueira voltará a arrear:

Arreou, arreou, arreou em qualquer coisa…

Um Outro Eu

Um outro eu, distante de mim
Distante de me pertencer
E distante de me querer
Um outro eu, num qualquer outro jardim
Dum qualquer outro canto
E com um qualquer outro pensamento

Um outro eu perdido
E desaparecido
Feito vagabundo a deambular para trás e para frente
Ora triste ora contente
Hoje aqui, amanhã ali e depois acolá
Um outro eu feito vagabundo, hoje aqui amanha lá!

Um outro eu por aí numa qualquer esquina
Com uma qualquer companhia
Num qualquer dia
E quiçá com uma qualquer mania
Procurando sua sina
Um outro eu talvez por aí perdido em angústia!

Um outro eu, numa qualquer discoteca de Luanda
Mulher bela, mulher linda
Mulher da vida, mulher que anda
Mostrando pernas grossas e exibindo os seios
Um outro eu mulher gatuna, roubando prazeres alheios
Numa qualquer discoteca de Luanda

Um outro eu, num qualquer quarto de um hotel
Numa cama de um hotel, sorvendo mel
Dando mel a um qualquer desconhecido
Conhecido
Um outro eu mulher linda
Prostituindo-se num qualquer hotel de Luanda

Um outro eu, num qualquer carro desconhecido
Em gemidos proibidos
Algures em canto escondido da ilha de Luanda
Da ilha da kianda
Um outro eu gozando prazeres aldrabados
Gozando prazeres contaminados!

Um outro eu dançando a tarrachinha
Pernas nas pernas entrelaçadas, desejo vivo nas entrelinhas…
Corpos nos corpos juntinhos
Respiração em respiração
Em louca excitação, em louca comunhão
Um qualquer eu a tarrachar, sexos nos sexos coladinhos!

Um outro eu às vezes, por aí entristecido e disperso
Num qualquer canto do planeta
Quiçá mesmo do universo
Um outro eu feito um qualquer cometa
Perdido à procura duma qualquer outra meta
Perdido à procura dum qualquer outro verso!

Um outro eu mulher linda
Mulher da vida, prostituindo-se num qualquer hotel de Luanda!

In, Meus Pés Descalços

Os Meus Pretendentes

Na Segunda, vem o João
Engatatão
Conversas fiadas, te quero miúda
Sem ti não vivo, não sou nada
Um planista, um intrujão
E leva logo uma tampa, leva um não!

Na Terça vem o Manuel
Montão de namoradas
Montão de apaixonadas
E falas mansas, falas em mel
Não me inspira confiança
Manuelito não me inspira segurança

Na Quarta vem o Pedro
Garganta inflamada em conversas
Garganta inflamada em promessas
Não perdes nada
Dou-te universos e galáxias miúda
Pedro tem massa, Pedro tem dinheiro!

Na Quinta vem o Toninho
Um cavalheiro
Em falas discretas em carinho
E ternura
Falas discretas em doçura
Um cavalheiro em bolsos magros de dinheiro!

Na Sexta vem o Victor
Olá querida, olá amor
Conversa astuta, conversa ágil
Victor é imbumbável*, gosta de boa vida
Víctor é imbumbável, gosta de boa bebida
Victor, o imbumbável, gosta de vida fácil!

Ao Sábado vem o Quim
De poucas falas em sua timidez
E fala-me sincero no olhar
Fala-me sincero no conversar
Quinzinho inspira-me confiança, talvez …
Quinzinho mexe comigo, talvez… o sim!

Ao domingo descanso
E penso
Penso Manuel, Pedro, Toninho, Victor, João…
Humm, Não!
Depois, depois penso Quim
E logo-logo estremece-me o coração. Talvez… o sim!

Na Segunda vem o Bento
Conversas de casamento
Na Terça vem o César
Quer amigar
Na Quarta vem o Valter
Amo-te, ficas a segunda mulher …
…

Ao domingo, descanso e penso Quim
Talvez… o sim!

Quinzinho quer dar alambamento,

Vou aceitar!

In, Os Meus Pés Descalços

CARTA DE UM ANGOLANO NO ESTRANGEIRO

Partimos para a pedreira
Bem sabes que não é isto que queríamos
Não foi com isto que sonhámos,
Partimos para novamente sermos os contratados
E os explorados
Para sermos os sem eira nem beira

Mão de obra barata, partimos
Para construirmos e edificarmos
Com a força dos nossos braços vigorosos
E dos nossos peitos musculosos
Os prédios, as estradas, as pontes...
Em terras alheias, terras distantes

Partimos
Bem sabes que não é isto que queríamos
Tu que sonhaste com doutores e engenheiros
Agora tens-nos carpinteiros e pedreiros
A desenvolver países estrangeiros
Países dos outros

Partimos para sermos espancados
E levarmos bofetadas
Dos cabeças-rapadas
Partimos para sermos desdenhados
E chamados com desprezo, pretos!
Nestes lugares longínquos, lugares incertos

Partimos, mas não queríamos partir
Lá no Menongue queríamos construir
Os hospitais, as escolas, as pontes...
Lá queríamos erguer um arranha-céus
Para então gargalharmos desafiantes
Os brancos europeus
(Mas lá no Menongue, não aqui em Portugal
Que isto nos faz sentir mal)

Partimos
Bem sabes que nos forçaram a partir
Fugimos
Bem sabes que nos forçaram a fugir
Mas não é isto que queríamos
Não foi com isto que sonhámos

O que nós queríamos
O que nós desejávamos
É construir uma ponte
E uma auto-estrada gigante
Que unisse os corações dos angolanos,
É isto que desejamos todos estes anos

Partimos
Mas bem sabes mãe, não é isto que queríamos
Não foi com isto que sonhámos!

In, A Fúria do Mar

Décio Bettencourt Mateus, naturalizado e residente em Luanda, nasceu em Menongue, província do Kuando-Kubango, aos 11 de Setembro.

É licenciado em Geofísica pela faculdade de Ciências da Universidade Agostinho Neto, no ano de 1998.

Cumpriu o serviço militar obrigatório na então Escola Político-Militar Comandante Gika, tendo atingido o grau militar de capitão.

Entre 1985 e 1997 leccionou em vários estabelecimentos de ensino com realce para o IMIL onde ensinou a disciplina de Física.

É membro da União dos Escritores Angolanos desde Março de 2007.

Actualmente trabalha na Indústria Petrolífera.

Publicou:

A Fúria do Mar (Poesia) – Editorial Nzila, 2004
Os Meus Pés Descalços (Poesia) – UEA, 2007
 

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