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O Sítio de Luanda: um contexto fisiográfico de Angola

Localizada, geograficamente, nas coordenadas terrestres entre os cerca de 8º 48´ graus de latitude e os 13º 13´de longitude, o Sítio de Luanda está inserido, do ponto de vista geomorfológico na unidade designada por “faixa litoral” , correspondendo a uma bacia sedimentar que data dos períodos secundário, terciário e quaternário, estendendo-se por toda a costa, alternando arribas vivas com praias e restingas de maior ou menor desenvolvimento.
O aspecto curvilíneo da “Cidade Alta” é suportado por um planalto que a configura como cidade litoral que, no sentido norte, desde a barra do morro, com cerca de 40m de altitude, onde se destaca a fortaleza de S. Miguel, até à Boavista, forma um acentuado arco escarpado, protegido por uma restinga que permitiu o crescimento do aglomerado “arrumado”, nos finais do século XVII, para uma baía onde aportavam embarcações de maior ou menor calado. Do estudo analítico que fizemos a partir das fontes, plantas dos séculos XVII, XIX e XX, verificámos que houve um crescimento significativo naquela área em função da existência do referido porto, protegido de tempestades marítimas e dos ventos por ter em frente uma ilha que lhe servia de trincheira e pelas barrocas.
Desde o aparecimento primeiro do Sítio, em terreno plano, liso, descoberto e fronteiriço à fortificação setecentista, o relevo foi, também, factor determinante da chamada “Cidade Alta”, projectada, de forma simples e quase em linha recta sobre o planalto delimitado por um outro conjunto de escarpas com barrocas, estendendo-se, em forma curva mais pequena, desde a fortaleza até à Samba.
Continuando o estudo sobre as representações já referenciadas, encontrámos uma projecção inicial da cidade para sudoeste, num momento em que a barra da Corimba servia de porto de ancoragem de embarcações de pequeno calado, vindo as mesmas a ancorar mesmo à frente da fortificação.
O estudo topográfico da cidade fez-nos perceber que a vulnerabilidade, das construções na zona litoral e planáltica, era baixa, pois o solo, no primeiro espaço, era constituído por calcários, argilas e margas com faixas ferruginosas estreitas e sobrepostas por sedimentos mais grosseiros de areias esbranquiçadas, e no segundo pela cobertura de areias vermelhas, com um solo muito pouco fértil. A consolidação destes solos faz-se com a fauna fossilífera senoniana, segundo Ilídio do Amaral, sobre areias finas e brancas, essencialmente compostas por grãos de quartzo, que se sobrepõem às plataformas de rochas porosas preenchidas com cimento calcário que a erosão verticalizou. Sob o farol das Lagostas, na parte norte da enseada, a arriba acama-se por areias vermelhas fossilizadas sobre uma base de arenitos vermelhos e com a existência de vegetação de savana, misturada com arbustos espinhosos, tufos de ervas secas, matebeiras, caçoneiras e imbondeiros que um clima tropical seco confere. O ambiente natural deste tipo de vegetação nem sequer foi beneficiado por um pequeno ribeiro, pois é inexistente uma bacia hirográfica no Sítio de Luanda, ironicamente situado entre dois rios de caudal significativo; o Cuanza, a sul e o Bengo a norte. Deste modo, o Sítio era servido pelas “casimas ou poços da Maianga”.
O abrupto paisagístico das barrocas, que gradam entre os 50 e 60 metros, estão muito dependentes das chuvas que decorrem nos meses de Março e Abril numa correspondência de 60 a 70 por cento, considerando um total de precipitação anual de cerca de 400mm, com uma média anual de 278 mm.
Genericamente, o clima de Luanda é caracterizado por duas estações; um mais quente e chuvosa e outra mais fria e seca. No que respeita à primeira, balizada entre Janeiro e Abril, o aquecimento mais intenso, derivado a passagem do Sol pelo Zénite que faz ascender massas de ar cujo arrefecimento, por expansão, provoca a condensação de humidade que podem ocasionar chuvas abundantes, associadas a fortes trovoadas.
O período seco, mais frio, em Angola designado por cacimbo, que decorre nos meses de Junho a Setembro, caracteriza-se por uma humidade relativa, consequente do arrefecimento térmico, sendo a temperatura média de 20º, à medida que o Sol se afasta do Zénite e há a influência dos ventos alíseos, relativamente secos. A existência de uma bruma revela a de uma corrente marítima fria que, amenizando a temperatura, não impede a aridez, antes estende a sua área de influência à costa, acima da qual escasseiam as chuvas.
Do nosso ponto de vista, para compreensão da geografia física do Sítio, consideramos o protagonismo da Corrente Fria de Benguela, responsável pelos determinismos climáticos, pela formação os cordões litorais, ajudando-os a arrumar de sul para norte, já que massas oceânicas transportaram detritos grosseiros que emergiram de variadas formas. Expostos a factores erosivos, modificaram-se paulatinamente, sendo exemplificativa a ruptura da restinga, verificada na década de 50, do século XX, ou mantiveram-se quase inalteráveis, como sucede com o bordão litoral do Mussulo, a sudoeste, frente ao bairro da Praia do Bispo e projectado para a pequena baía da Barra da Corimba. Esta inalterabilidade deve-se à maior frequência de ondulação, de sudoeste, das calemas, marés vivas, arrastando areias de sul para norte.
Foi na perspectiva deste protagonismo que percebemos a apropriação o espaço litoral setecentista, buscando um testemunho nas fontes que escrevem a extensão da restinga, estendida descontinuamente desde a barra do Cuanza até à baía de Luanda, onde recurvou a sua extremidade em função das correntes de maré; Ilha tem doze legoas de comprido, começando de sua ponta, e serve de seu amparo às influencias do vento de furor, tendo seus limites até donde chamão Tampo, e a barra da Curimba, que está quasi em meyo, e de largo meya legoa, pouco mais ou menos.
Numa leitura geográfica da Ilha, considerando-se as narrativas de Oliveira Cardonega, percepcionamos que, apesar desta ser tão baixa que quasi se igualla com o livel do mar é muito rica em coqueiros, tamarinheiros e tamareiras que enredadas as suas ramas humas com outras, evitão o rigor das influencias do sol desta zona tórrida.
A fauna piscícola, benefeciada pela referida corrente de Benguela, é abundante e diversificada. A título exemplificativo, salientmos o peixe-serra, a tainha, o cherne, a dourada, a pescada e a choupa ou, da sub-classe dos moluscos, a siba e o choco.
A título conclusivo, temos de inferir que a Ilha foi de Muita utilidade à conservação da cidade, tanto como ponto estratégico que também serviu relações históricos entre o Congo e sertão.

   Autora: Filomena Malva

Fontes:
Cadornega, António de Oliveira- História Geral das GuerrasAngolanas- tomo III- Divisão de Publicações e Biblioteca/Agência Geral das Colónias, 1942

Estudos:
Amaral, Ilídio do- Luanda (Estudo de Geografia Urbana)- Memórias da Junta de Investigação do Ultramar nº 53, Lisboa, 1968

Costa, F. Vasco- As calemas do mar de Angola – in técnica nº 288, Lisboa, 1959
Neto, M. G. Mascarenhas- O sedimento costeiro de Angola – Curso de Geologia do Ultramar, vol. II- Junta de Investigação do Ultramar. Lisboa, 1970

Rennie, John V. L.- Lamelibrânquios e Gastrópodos do Cretáceo Superior de Angola – Memórias, Série Geológica I- Imprensa Nacional de Lisboa, 1945

Strahler, Arthur N.- Geografia Física- Ediciones Ómega, SA- Barcelona, 1975
Carta Generalizada dos Solos de Angola (3ª aproximação)- Memórias da Junta de Investigação do Ultramar, Lisboa, 1968

Estudos de Biologia Marítima- Memórias da Junta de Investigação do Ultramar, nº 4, Lisboa, 1958

Panorama da Geografia- Vol. I, Edição Cosmos, Lisboa, 1953

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