Pepetela nasceu em Benguela, em Angola, em 1941.
Licenciado em Sociologia em Argel, escritor, guerrilheiro em Angola, político e representante do MPLA, foi professor na Universidade de Angola e membro da Comissão Directiva da União de Escritores Angolanos.
A atribuição do Prémio Camões em 1997 confirmou o seu lugar de destaque na literatura lusófona.
Obras de Pepetela:
Muana Puo (1978- romance)
Mayombe ( 1980- romance a quem foi atribuído o Prémio Nacional de Literatura - Angola
O Cão e os Caluandas (1985- romance)
Yaka (1985- romance)
Lueji, o Nascimento de um Império (1990- romance)
A Geração da Utopia (1992- romance)
O Desejo de Kianda (1995- romance)
Parábola do Cágado Velho (1996)
A Gloriosa Família (1997- romance)
A Montanha de Água Lilás (2000- fábula)
Jaime Bunda, Agente Secreto (2001- romance)
Jaime Bunda e a Morte do Americano (2003- romance)
Predadores (2005- romance)
O Terrorista de Berkeley, Califórnia (2007-romance)
Pepetela
Muitos factos e alguma imaginação cercaram a preparação deste livro, motivado por um conjunto de expectativas e sentimentos que se misturam na agenda daqueles que acreditam na importância da África e de seu universo cultural entre nós.
(…)
A experiência angolana, tão bem acolhida entre nós no Brasil, nos ensina que o ritual ganha expressão se a festa é partilhada com outras gentes; por isso, a vontade de saudar o escritor levou-nos a dividir o gesto com uma entidade de sua terra.
(…)
Na preparação dessa festa, algumas pessoas foram fundamentais, intervindo de variadas maneiras para que o desejo ganhasse corpo: Conceição Barata, José Luís Cabaço, Luís Samora Cabaço e Paula Tavares. E, vale reiterar, muito especialmente, a participação de Célia Marinangelo, Marina Ruivo e Vima Lia de Rossi Martin, pela dedicação à pesquisa que esteve na base desse projecto.
Rita Chaves e Tânia Macedo
In, PORTANTO … PEPETELA
Organizadoras
Rita Chaves
Tânia Macedo
Edições Chá de Caxinde
PEPETELA POR OUTRAS VOZES
PEPETELA, BEM –VINDO…
Dário de Melo
(escritor angolano)
Pepetela, conheci-o no Ministério da Educação. Vinha aureolado de ter escrito no maquis um livro As Aventuras de Ngunga, lido e consumido aos milhares e que se tornou um clássico da nossa pouca literatura para os mais novos.
Mais adiante, ou quase ao mesmo tempo, publicou o Mayombe. Um livro corajoso: quando todos nós, com maior ou menor fervor, não fugíamos à tentação de pôr os guerrilheiros nos altares de onde tínhamos tirado os santos, ele mostrava-nos o combatente como um homem comum, com os seus defeitos e fragilidades, com os seus medos e tribulações, com, por vezes, o seu pouco esclarecimento sobre a luta que o fizera herói.
In, PORTANTO … PEPETELA
Organizadoras
Rita Chaves
Tânia Macedo
Edições Chá de Caxinde
RELER PEPETELA
Gabriela Antunes
(escritora angolana)
Conheci-o pequenito, ainda de calções.
Era no tempo em que ele deixava o Bairro do Benfica, onde nascera, o mar, o Sombreiro, o bananais, o Cavaco… e na velha Estação de Benguela, (…), tomava o comboio e ia apanhar um “Banho de Civilização” à cidade, que, por decreto nunca revogado, era a capital de Angola. Refiro-me ao Huambo, a minha cidade, porque quase toda ela construída pelo meu pai. (…)
Juntos frequentámos, depois, um dos dois únicos liceus existentes na então colónia – o Liceu Diogo Cão do Lubango, (…)
Voltámos a encontrar-nos na Casa dos Estudantes do Império, em Lisboa, onde eu, com a cabeça cheia de sonhos e o corpo de desejos, enveredara pelo estudo das línguas e literaturas e ele, (…) passava rapidamente pela Engenharia e procurava o seu refúgio pela História … que acabou por ser trocada pela Sociologia.
(…)
74 foi tempo de regresso e reencontro. Ele voltou, de barbas para esconder o ar jovem que ainda tinha, (…) e trazendo um nome novo – Pepetela – que em Umbundo da terra da gente, quer dizer “pestana”, o seu apelido, afinal. Na bagagem, trazia algumas surpresas.
A primeira surgiu em 1977, quando As Aventuras de Ngunga foram postas à venda, em edição da União dos Escritores Angolanos, de que fora um dos ilustres fundadores. Escrita no maquis em Novembro de 72, para servir de texto às crianças das escolas das zonas libertadas do MPLA e dos adultos recém-alfabetizados, (…).
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Rita Chaves
Tânia Macedo
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Até Camões *
Henriques Abranches
(escritor angolano)
Eu deveria começar pela apresentação do autor. Mas Pepetela não precisa. É um marco da nossa literatura, é muito conhecido. Até Camões o conhece… ou pelo menos reconhece.
Todavia é sempre bom reparar no caminho que o autor tem seguido com as suas obras, como quem dá passos na certa direcção.
* Texto de apresentação do livro A Gloriosa Família – tempo dos flamengos, na cerimónia de seu lançamento em Luanda
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Rita Chaves
Tânia Macedo
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PEPETELA: A DIMENSÃO DO RENASCIMENTO
José Luís Mendonça
(escritor angolano)
Membro da Associação Cultural e Recreativa Chá de Caxinde, Pepetela é homenageado pelo seu contributo à Nação que todos, ainda que a vender sacos de água gelada, ajudamos a consolidar. É uma grande honra para uma associação como esta contar nas suas fileiras com um escritor a quem foi outorgado o Prémio Camões (…)
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O PEPE
Júlio de Almeida
(deputado pelo MPLA)
Há mais de 45 anos que conheço o Pepe.
Ainda imberbes, entre 1954 e 1957, frequentámos juntos o Liceu e vivemos no Internato do Liceu Diogo Cão, no Lubango, então gerido pelos Irmãos Maristas. (…)
(…)
Como o Pepe nasceu um ano depois de mim, ele ainda ficou no Lubango quando fui estudar para Portugal em 57. Ele foi em 58 e aí nos voltámos a encontrar, quer na Casa dos Estudantes do Império, quer no Instituto Superior Técnico, onde ambos estávamos
matriculados para ser engenheiros.
A dada altura, em 1960, o Pepe achou que isso de engenheiro não era para ele e decidiu mudar para a Faculdade de Letras. Para fazer tal transição de faculdades era necessário que o Pepe fizesse as disciplinas de Latim e Grego do 7º ano. Ora, tendo eu feito um ano antes este mesmo percurso, tornei-me em “explicador” daquelas disciplinas, tendo o meu discípulo obtido melhor nota no exame a Latim do que eu houvera obtido no ano anterior, (…) Este nosso segredo foi revelado publicamente pelo Pepe, aquando do lançamento em Luanda da obra de Saramago A Caverna, pelo que é de sua autoria a primazia desta inconfidência.
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PEPETELA – A PESTANA VIGIANDO O OLHAR
Mia Couto
(escritor moçambicano)
Uma primeira amostra da obra de Pepetela me chegou há muitos anos. A nossa rádio, deste lado do Índico, adaptava As Aventuras de Ngunga. Nessa altura, eu não tinha possibilidades de avaliar o autor. Mesmo na adaptação radiofónica, o texto parecia-me demasiado óbvio na sua intenção didáctica. Nessa altura, Pepetela era um militante do Departamento de Educação, preocupado e ocupado com a pedagogia dos estudantes da região do Leste de Angola, onde ele actuava como combatente do MPLA.
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QUARENTA ANOS DE AMIZADE
PARA SESSENTA DE VIDA
Ndunduma wé Lepi
(escritor angolano e deputado pelo MPLA)
Para ser exacto tenho de admitir que conheço o Pepe há mais de quarenta anos! Perdoem-me pois que o efeito literário relacione melhor sessenta com quarenta. É um facto inegável: no acto de escrever, em literatura, os personagens ditam a quem escreve, sem contemplações, aquilo que querem, ponto final e basta!
(…) quem saberá dizer um dia que também Pepetela travou por Angola combates no Chongorói, no Lobito e noutras localidades da Benguela de Angola? Quem eram os seus companheiros desses dias? E no leste e em Cabinda? E na Argélia? E no Congo? E no regresso à Pátria? E na tragédia de Maio? E no Ministério da Educação, a obra feita aí? E como e quando, em que circunstâncias foram escritos o Mayombe, Lueji, Muana Puo, As Aventuras de Ngunga, Yaka, O Cão e os Caluandas, A Geração da Utopia, O Desejo de Kianda, A Parábola do Cágado Velho e da Víbora da Cabeça ao Contrário, Luandando, A Gloriosa Família, A Montanha da Água Lilás?
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Rita Chaves
Tânia Macedo
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PEPE
Orlando Sena
(Cineasta brasileiro)
Meu primeiro contacto com Pepetela foi a leitura de Mayombe, em 1980. Luandino Vieira me mandou o livro com o propósito de envolver-me em um projecto cinematográfico, a transcodificação deMayombe em um filme.
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CARO CONFRADE PEPETELA *
Roderick Nehone
(escritor angolano)
Decorria o ano de 1993, lento, pelo prolongar da tragédia, rubro, pelo jorramento de sangue de corpos esvaídos, e incerto, pelo nebuloso futuro que para todos nós se divisava, quando nas minhas buscas literárias achei um livro que começava assim:
Portanto, só os ciclos eram eternos.
(Na prova oral de Aptidão à Faculdade de Letras, em Lisboa, o examinador fez uma pergunta ao futuro escritor. Este respondeu hesitantemente, iniciando com um portanto. De onde é o senhor?, perguntou o Professor, ao que o escritor respondeu de Angola. Logo vi que não sabia falar português; então desconhece que a palavra portanto só se utiliza como conclusão de um raciocínio? Assim mesmo, para pôr o examinando à vontade. Daí a raiva do autor que jurou um dia havia de escrever um livro iniciando por essa palavra. Promessa cumprida. E depois deste parêntesis, revelador de saudável rancor de trinta anos, esconde-se definitiva e prudentemente o autor) 1
* Discurso de saudação proferido pelo escritor e Vice-Ministro da Cultura na cerimónia de entrega do Prémio Prinz Claus
1 Pepetela. A Geração da Utopia, p. 9
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Quatro séculos atrás (pelo menos)
Lueji voltou ao lago da sua infância. Era elíptico, grande, só os bons nadadores o podiam atravessar no sentido do comprimento. As margens estavam cobertas de fetos compridos e também dos mais pequenos, de folhas em palma todas recortadas, os fetos da Lunda. Brincavam a se mascarar com estes, através dos quais tudo podiam ver. Além de muitas outras variedades, o lago era rodeado de plantas com caniços compridos e de folha grande, que davam estranhas flores cor-de-rosa na ponta de hastes estreitas, as rosas de porcelana.
(…)
Aos doze anos já Tchinguri atravessava o lago e Lueji pasmava dos feitos do irmão mais velho. Chinyama, pelo contrário, mal sabia nadar. Preguiçoso como só ele, esse seu irmão do meio. Corriam despreocupados pelo lago, com outros rapazes. As raparigas olhavam e riam, não participavam das brincadeiras masculinas. Lueji sim. E Tchinguri lhe ensinou a lançar a funda de caça e a fazer armadilhas para os bichos e a pescar e a subir às altas árvores da beira-rio para apanhar os favos de mel. Em tudo imitava o irmão mais velho. (…) Tchinguri era o ídolo de Lueji. Chinyama também admirava o irmão mais velho, mas de maneira diferente: tinha medo dele. Pois Tchinguri era violento.
(…)
Ela tinha fugido da casa materna e procurado refúgio no lago da sua infância. Mais uma vez Tchinguri era responsável pela fuga. Numa discussão violenta com Ndumba ua Tembo, que era o único com coragem de lhe fazer frente, saiu furioso do tchota e bateu na primeira mulher que encontrou. O marido da mulher viu a cena e, cego pela raiva, não reconheceu o filho do chefe. Lhe deu logo uma bassula e Tchinguri ficou vermelho do pó da terra. Se levantou, irado, e então o outro reconheceu nele o provável herdeiro da Lunda. (…) Tchinguri apunhalou-o, mas desconseguiu matar porque outros muatas o seguraram, implorando calma. (…) O caso foi levado a Kondi para ser julgado. O encontro entre os dois, filho e pai, foi uma cena penosa, pois o chefe andava furioso com os desmandos constantes de Tchinguri, mas era velho de mais para impor a sua autoridade. (…) Lueji gostava muito do pai, fraco mas justo. E ainda gostava mais do irmão. Fugiu para o lago.
(…)
Regressou altas horas da noite, esquecendo as onças e leões se agitando nas chanas. Levantava pó vermelho no caminho entre capim alto, pelo arrastar dos pés colados ainda à visão do lago. Mussumba dormia e passou entre as cubatas sem ninguém encontrar. As brasas se consumiam nas fogueiras e só os cães ladravam de vez em quando. Das cubatas vinham lamentos, suspiros, ruídos de gente que dorme ou faz amor. Nada de vozes ciciadas, discutindo a maldade de Tchinguri (…).
(…)
Levantou de manhã bem cedo, sem ter dormido. A vida agitava Mussumba. Pescadores passavam com as nassas e mujias para o rio, mulheres iam com enxadas para as lavras, os mais velhos se reuniam aos poucos no tchota.
(…)
Musole muxuxou, aquele teu irmão Tchinguri ué, contou o julgamento, o relato das testemunhas, as falas dos familiares do homem apunhalado, a defesa feita pelos amigos de Tchinguri, tinha muitos pois já viam nele o futuro chefe. E falou também da soberba do príncipe, que não admitia a falta.
(…)
Kondi (…) vai consultar Kandala, o grande adivinho da Lunda e já partiu bem cedinho (…)
- Que quer o meu pai saber?
- Já te disse. Tem medo que Tchinguri seja um mau chefe, que o povo sofra com ele. Quer saber o que fazer.
Lueji calou mas não gostou. Tchinguri ia se moderar quando subisse ao poder, passaria a ouvir conselhos dos Tubungo. Era o mais corajoso de todos os lundas e um grande guerreiro, as tribos vencidas aí estavam para o provar. Era também capaz de gestos justos, como defendeu o seu amigo Nandonge, acusado injustamente de feitiçaria por dois adivinhos. Exigiu que se repetissem as adivinhações, mas com o cesto da Kandala, o maior dos adivinhos. E Kandala deu razão a Nandonge e provou o feiticeiro era alguém da família da vítima. Tchinguri subiu na consideração dos muatas e de Lueji, se ainda era possível. Porque precisava muita coragem para defrontar a opinião de dois adivinhos num caso de feitiçaria. Podia atrair as raivas deles para uma próxima oportunidade ser ele próprio acusado. E mais. Só uma grande lucidez conseguia destrinçar o falso e o verdadeiro, quando se trata com espíritos malignos. Tchinguri o fizera, podia ser um mau chefe?
O mujimbo se espalhou, Kondi foi consultar Kandala, pois Musole era incapaz de guardar segredo. À tarde toda a Mussumba aguardava impaciente o regresso do chefe dos Tunbungo. Mas ele não veio. Caso complicado, Kandala desconseguia de dar resposta imediata. Lueji aproveitou ir visitar Tchinguri. Este não tinha saído de casa todo o dia, seria vergonha do que passara, seria raiva do mujimbo que Chinyama correu a lhe contar? Lueji encontrou lá Chinyama e também o inseparável Nandonge.
Tchinguri estava uma fera, dava os seus passinhos miúdos dum lado para o outro, no terreiro em baixo da árvore. A barba afilada no queixo parecia mais desafiadoramente espetada para a frente. Tchinguri era baixo e em tudo contrastava com o irmão mais novo, pachorrentamente sentado num banquinho ao lado de Nandonge, os pneus da barriga saindo generosamente da tanga. Tchinguri usava também só uma tanga, tecida artisticamente de ráfia, o punhal eternamente colocado à cintura, com ele dormia. O único ornamento no peito era o colar de unhas de onça, bicho que ele matara, ornamento e poderoso amuleto, pois no meio tinha um tubinho de madeira com ervas e pós mágicos. Quando se voltava, tal era a fúria que o colar chocalhava. Na cabeça usava as miluínas, ornamento que só o pai e ele podiam possuir. Eram três objectos, em forma de chifre, mas feitos de pêlos e fios, que desciam do alto da cabeça para as duas têmporas, presos ao cabelo. As pontas vibravam quando ele se irritava. No pé esquerdo tinha a lucanga, pulseira que só os herdeiros podiam usar. Chinyama também tinha lucanga, imposta depois da circuncisão, mas não tinha miluínas.
Lueji cumprimentou, batendo as palmas rituais, respeito que se deve ao irmão mais velho. Este falou logo:
- O pai já voltou?
- Não, deve passar lá a noite.
(…)
- Então Kondi quer deserdar-me?
- Assim me disseram – respondeu ela.
- E o povo todo está contente com isso, não é?
- Não me disseram. E não acredito.
Tchinguri parou a olhar para ela. Pela primeira vez, os olhos ficaram menos maus. Um breve fulgor de sorriso nos lábios?
- Felizmente os meus irmãos estão comigo. E os meus amigos. É um consolo para quem tem um pai velho e caquéctico.
- Não fales assim do pai, Tchinguri.
- É verdade, Lueji. Está a morrer de velho e já não tem ideias claras. Só faz o que lhe aconselham certos Tubungo, como Kakele e o Kakolo, esses cretinos.
- Mas muata Kakolo é teu sogro… - disse Lueji.
- E depois é outro caquéctico. Quem o diz é a filha dele. E anda a intrigar a favor de Ndumba ua Tembo. Ele, o Mbumba, o Moxico… Os caquécticos intriguistas que têm o poder na Lunda! Se eu não for sucessor ou o Chinyama…
- Nem quero ouvir falar – cortou Chinyama. – Já me viram chefe dos Tubungo? Dá muita chatice, uma pessoa emagrece. E a propósito, Tchinguri, o ndoka acabou?
O chefe da casa bateu as impacientemente as palmas. Não foi preciso falar. Logo apareceu uma mulher com a cabaça grande cheia de hidromel e uma cabacinha pequena cortada ao meio. Chinyama pegou logo na cabacinha, mergulhou-a na cabaça grande e retirou-a cheia de ndoka. Depois passou a cabacinha aos outros, estalando a língua. Só Nandonge aceitou beber.
- Como eu dizia, se não formos nós os escolhidos, será Ndumba ua Tembo. Ele tem apoio dos muatas.
- Não é Kondi quem decide, é o Conselho dos Tubungo –disse Nandonge.
- Vai dar ao mesmo – disse Chinyama lentamente.
- O Conselho sempre aprova a proposta do chefe. Kondi tem o lukano e com ele o poder sobre a chuva. O Conselho vai desafiar o poder do lukano? Nunca.
- Só com o chefe morto – disse baixinho Tchinguri.
O silêncio que se seguiu foi aproveitado por Chinyama para encher de novo a cabacinha. Lueji adiantou a falar:
- Estão só aí a fazer suposições à toa! A verdade é que o nosso pai está muito triste com o que fizeste, Tchinguri. Não tem razão? Precisas ter mais calma, não te enfurecer por qualquer coisa…
- Estás contra mim, mana? Afinal?
- Sabes que não. Mas o julgamento foi justo e faltaste ao respeito ao chefe. A culpa é tua… Mas a raiva do pai passa. Qualquer que seja o oráculo de Kandala. Sempre me ensinaste que é preciso interpretar as palavras dos adivinhos e que cada um entende à sua maneira. Não acredito que o pai passe o poder para fora da sua família, é contra a tradição.
- A tradição se torce quando é preciso – disse Chinyama.
- A tradição depende da força – reforçou Nandonge.
- E quem tem a força? – perguntou Lueji.
- Kondi – disse Tchinguri. – Ele tem o lukano.
Lueji foi dormir. Os outros ficaram a beber (…)
Kondi só regressou na tarde do dia seguinte. Vinha cansado, de passos trôpegos, acompanhado de três homens do seu séquito. As pessoas saíam de casa para cumprimentar, batendo as palmas, bem-vindo, Kondi, filho de Yala Muako, e ele só respondia com um breve aceno de cabeça. Lueji estava em casa dele e viu, Kondi tinha envelhecido (…)
Logo chegaram os Tubungo mais próximos, muata Kakele à frente. Se vinham na esperança de um mujimbo, ficaram defraudados, pois Kondi despediu-se logo, estava cansado. À noite ia passar o mujimbo a Musole, a sua actual confidente.
Lueji foi também se despedir. Ajoelhou, poisou a cabeça nos joelhos do pai, como fazia em pequena. Ele apoiou a mão sobre a dela.
- Pai, perdoa o meu irmão Tchinguri.
Kondi não respondeu. Acariciou a cabeça da filha. Ela repetiu a súplica.
- Ele é que devia pedir.
- Ele é orgulhoso. Sabes bem, pai.
- Faltou ao respeito ao soba dos Tunbungo, em pleno julgamento. Um futuro soba não pode faltar ao respeito ao soba actual. Como depois se faz respeitar, se deu aos outros o mau exemplo?
- Conheço-o melhor que ninguém. E juro, pai, ele vai mudar.
- Sim, tu conheces Tchinguri melhor que ninguém. Conheces com o coração. E o teu coração é grande Lueji.
- Se ele for soba, a responsabilidade obriga-o a pensar antes. E a moderar o seu orgulho.
- É essa a minha esperança.
Assim falou Kondi e Lueji entendeu, o pai não tinha ainda decidido deserdar Tchinguri. Se foi deitar, tranquila, a crise ia ser ultrapassada. O Conselho de Kandala, o que sabe tudo, o depositário do saber do povo lunda?
(…)
Estava pois Lueji deitada quando ouviu as vozes de Tchinguri e Chinyama se dirigindo para casa de Kondi. Preocupou-a o tom das vozes, de quem passara a noite a beber ndoka. Não ouviu mais, mas ficou atenta, perscrutando o silêncio de Mussumba. Soube depois…
Os filhos encontraram Kondi ainda sentado no banco, os pés numa bacia de água morna e com uma cabacinha na mão.
- É marufo, pai?
- É água.
- Que pai é este que nem nos dá de beber? – disse Tchinguri. – E agora vou dormir.
- Velho mentiroso – disse Tchinguri. Bebes às escondidas dos teus filhos. Fazes tudo às escondidas dos teus filhos. Não tens coragem de fazer de frente?
- Rua de minha casa, seus bêbedos. Rua!
O grito fez Tchinguri perder a cabeça, ainda a tinha antes?
Avançou para Kondi, lhe deu duas chapadas na cara.
- Isso, Tchinguri, dá mais nesse velho maluco – apoiou Chinyama.
Kondi caiu do banco e a cabeça rachou ao chocar contra uma trave. Os gritos de Musole e dos serviçais despertaram a vizinhança. Lueji saltou da esteira e foi, nua, ver o que se passava. Já Tchinguri e Chinyama saíam da oganda aos berros, é para aprenderes a não mentir aos teus filhos, velho caquéctico. O soba jazia prostrado no chão, o sangue escorrendo da cabeça. Lueji foi a primeira a pegar nele, depois de Musole. Estenderam-no na esteira e tentaram estancar o sangue. Mensageiros foram enviados à pressa buscar os melhores kimbandas. Os ngomas e chingufos não pararam mais o seu batuque, invocando espíritos protectores da linhagem do soba. Toda a noite Kondi passou inconsciente, apesar de estar nos braços de Lueji que lhe aplicava emplastros de ervas para parar o sangue e apesar de todas as medicinas dos kimbandas. A cubata estava cheia de fumo das ervas e das penas de galinha, cheirava a sangue de homem e também das galinhas e capotas sacrificadas para o salvar. As invocações dos kimbandas se misturavam aos ruídos vindos de fora, do batuque interminável e das preces das mulheres.
Já o Sol ia alto quando Kondi abriu os olhos. Muito tempo ficou sem entender o que se passara. Depois a inteligência foi aparecendo nos olhos desbotados, olhou a cara de Lueji inclinada sobre ele, sentiu o colo nu dela onde a cabeça apoiava, sorriu. Não foi preciso explicar, lembrava agora tudo. Se via. Ninguém falou e ele adormeceu.
Kondi acordou de novo à tarde e voltou a ver a cara da filha. Ouviu o ritmo monótono do batuque. Viu depois Kandala que mexia à sua frente o ngombo das adivinhações. Pegava numa mahamba, depois noutra, misturava e olhava, olhava para dentro do cesto e mexia e remexia os ossos carcomidos, os pedaços de madeira e pano, os búzios de todas as formas apanhados nos rios, os restos de peles e pêlos, o pedaço branco de caulino, a pemba, misturava tudo e olhava, olhava e meditava. Todos estavam suspensos das suas palavras. Mesmo os kimbandas tinham parado as suas fumigações para observar a figura veneranda do mais velho entre os velhos, chamado para ditar o destino do soba grande dos Tubungo. Kondi sabia, a sua vida estava ser jogada às sortes, mas não estremecia.
Kandala levantou os olhos para ele e ficou calado, o ar triste de muito velho.
- Então, Kandala? – disse Kondi numa voz fraca.
O adivinho abanou a cabeça e suspirou.
- Deves preparar-te, filho de Yala Muako.
Musole saiu a correr aos gritos. No terreiro à frente pôs-se a lamentar e a xinguilar, mataram o meu homem, mataram o chefe dos Tubungo. (…)
(…)
Kandala saiu da cubata e gritou para as mulheres que já atraíam gente correndo de todas as partes:
- Calem-se, mulheres. Ele ainda não morreu.
O respeito era de mais e as mulheres calaram. As pessoas estacaram, não entraram na onganda. Kandala voltou para dentro, dizendo deixem-nos sós.
Ninguém nunca soube o que falaram os dois sozinhos, mas dá para supor. Lueji aproveitou para ir pôr o pano, desde a véspera estava nua e nada tinha comido. A mãe dela, a segunda mulher de Kondi, levou-a para a cubata, mesmo atrás da do soba e lhe deu xima de massango e um pedaço de carne, come, estás com mau aspecto. Ela obedeceu, olhando a mãe.
(…)
Depois Kandala saiu. Se espreguiçou, falou para Lueji:~
- Podes entrar, filha de Kondi.
O pai estava com pior aspecto. Lueji ajoelhou ao lado da esteira, compôs a pele de onça que o tapava. O velho sorriu para ela.
- Ainda me pedes para perdoar os teus irmãos?
Ela baixou a cabeça e soluçou.
- Um chefe não pode ouvir o seu coração, sobretudo se é um coração grande. Tchinguri não presta. E Chinyama não é melhor.
- São teus filhos, pai.
- São. E vê o que fizeram ao pai. Talvez a culpa seja minha, defeito meu, não soube fazer filhos bons. Só uma filha.
- Que vais fazer a eles?
- O castigo está decidido. Nenhum será chefe dos Tubungo. Mas não quero que sofram outro castigo. São filhos de chefe e devem ser respeitados.
Lueji agarrou a mão dele, sussurrou:
- És o homem mais justo que conheci, pai.
Ficaram longos momentos em silêncio, escutando o som dos ngomas que invocavam os espíritos, pedindo a cura de Kondi.
- Mas Kandala também se pode enganar, pai.
- Não. Sinto, esta noite tudo termina.
- Terá de ser assim?
- Assim está escrito no ngomo de Kandala… Lueji, tomei uma decisão. O lukano não pode passar para fora da minha família, essa é a tradição dos Tubungo. Nós descendemos directamente de Tchyanza Ngombe, a mãe Nhaweji, a grande serpente que criou o Mundo, assim como o fogo e a água. Nenhuma outra linhagem descende directamente dela, tu sabes. Mas os teus irmãos não merecem o lukano. Como fazer? Só há uma solução. Entrego-te o lukano.
- A mim, pai? Não, não quero.
- Tem de ser. Assim, ele não sai da linhagem paterna. E entregarás o lukano ao teu filho que se mostrar capaz de ser chefe dos Tubungo. É a minha vontade e a dos antepassados também.
- Mas, pai… Eu sou uma rapariga, não sei comandar, nem tenho força para isso. Pedes de mais, filho de Yala Muako.
O velho lhe passou a mão pela cabeça. Suspirou.
- Já não temos muito tempo. É a vontade dos antepassados e vais obedecer. Sempre me obedeceste ao teu pai. Encontrarás a força em ti própria e na tradição dos Tubungo. Eles te ajudarão. Confia em Kandala e no muata Kakele. Em mais ninguém. Se o lukano sai da nossa família, os Tubungo se matam uns aos outros pelo poder. E os estrangeiros do Norte dominam a Lunda. Se necessário, procura alianças fora da Lunda. Mas não tenhas pressa em casar e em fazer alianças. E nunca mostres que hesitas. Quando não souberes o que fazer, ganha tempo até saberes. Esse é o segredo. O chefe tem de parecer saber sempre mais que os outros.
- Não sou capaz, pai. Não sei, não quero, não gosto.
- Gostarás quando sentires nos outros o medo por ti. É um vício que se apanha rápido.
Lueji chorava, esmagada pelo que pretendiam. Gostava de correr pelas chanas atrás dos animais, se banhar no rio, subir às árvores à procura do mel, ouvir piadas dos rapazes e provocá-los, ir sonhar para o lago ao anoitecer. Tudo isso ia terminar. Não, o lago ficava. Só o lago.
(…)
Podia recusar? Podia objectar contra aquela voz querida que se apagava? Apressar a morte pela discussão?
- Farei o que mandas, meu pai. Mas os outros?
- Eles aceitam, não há outra solução. Vai convocar o grande Conselho dos Tubungo. E chama Kandala também. Ele nunca quis, mas hoje ocupará o seu lugar no Conselho. Vai, não há tempo a perder.
Lueji saiu da casa e a luz do Sol lhe feriu os olhos. Chamou os mensageiros, mandou convocar o Conselho dos Tubungo. (…)
Não queria pensar no que decidia naquele momento o grande Conselho dos Tubungo. Queria pensar no grande lago que gostaria de conhecer, queria pensar no homem que saíra uma vez da Lua, queria pensar em tudo menos no Conselho. Mas não podia. O coração estava agitado, perante o futuro que lhe reservavam. Era uma grande injustiça.
Só mais tarde soube os pormenores da reunião, o pai deitado numa liteira, aos ombros de doze homens para ficar em plano superior aos demais, com a voz fraca anunciando não quero castigo para os meus filhos mas o lukano só a Lueji pertencia (…)
(…), tirou a pulseira sagrada feita de tendões humanos enrolados, a enfiou tremendo, a enfiou tremendo, com vontade para além da morte física, no antebraço da filha, perante o silêncio ajoelhado de todos os membros do Conselho, levantou o braço de Lueji para mostrar aos presentes como o lukano se ajustava perfeitamente, murmurou entre a baba és a senhora das terras, Luéji-a-Kondi, e morreu.
AGORA SOU EU QUE FALO; EU; KONDI,
chefe dos Tubungo e rei da Lunda, no momento que meu espírito do corpo se liberta, ligeiro, para cima da mulemba mais alta da Mussumba, onde vai ficar para sempre.
Toda a vida tive medo deste instante e afinal nada senti, só uma sensação de leveza, uma estranha paz interior, um até que enfim estou livre, fiquem vocês no pó da terra com vossas lutas mesquinhas feitas de invejas e ambições, cumpri o meu destino para o bem da Lunda e apesar de ter enterrado viva a minha filha, a ter arrancado aos seus sonhos (…) não sinto remorsos, apenas tranquilidade. Ela vai fazer o necessário, vai alimentar o meu espírito com as melhores iguarias da Lunda, vai respeitar o meu nome e cultivar o meu prestígio, não vou ser esquecido pelas gerações que se colocam já na bicha do futuro. Kondi será sempre recordado como um homem justo que salvou a Lunda, ao evitar que os filhos varões tomassem o poder para com ele brincar e o destruir.
Que dor tão grande deserdar Tchinguri, o mais valente, o mais inteligente de todos os lundas. Mas também o mais descrente, o mais ímpio, o destruidor das crenças seculares que podem manter vivo o meu espírito e a recordação do meu nome. (…) Lueji não, ela vai conservar as belas tradições dos Tubungo, será a voz e a vontade deles, não vai inventar caminhos novos só por estar cansada da rotina de ir sempre buscar água ao rio pelo mesmo trilho. (…)
Lueji vai invocar o meu espírito, comigo vai tentar falar?
Duvido agora que lhe responda. Me sinto tão bem aqui no alto da mulemba, as folhas a roçar umas nas outras pela brisa que vem do Ocidente fazem um sussurro tão agradável e tão calmo, que meu espírito preguiçoso não vai responder aos seus apelos, vai apenas querer sonhar numa sonolência de quietude, observar sorrindo o que se passa no Mundo, finalmente sábio ao infinito, desprezando os míseros sentimentos humanos de dor e desejo.
Lueji, não me chames, pois não responderei.
Agora sei os espíritos não podem responder aos humanos, pois são demasiado felizes no alto das árvores para se preocuparem com o que foi e o que é e o que será. Se lixem vocês todos aí em baixo, eu já sou o infinito, o zero absoluto.
Quatro séculos depois (amanhã)…
Ao ver Lu sair naquela manhã do Centro de Documentação Histórica, onde eu ia entrar, não podias imaginar a força daquele encontro. Não está na cara das pessoas o que elas estão a ouvir. Sons inconscientes, fragmentados, tocavam nos ouvidos de Lu. Sons de marimbas. Como podia eu saber? Só mais tarde, quando ela contou tudo: Mas havia algo estranho no olhar ausente dela, passando por mim sem ver. Aí começou tudo. Num olhar vazio, porque todo para dentro. Com a ajuda dela, iria reconstruir o seu percurso solitário. Percurso ao mais profundo de si própria, ao grito último da gaivota.
Na altura dei meia volta, a observar o seu passo gracioso de bailarina. As pessoas viraram a cabeça para apreciar o jogo subtil das ancas e o lançamento das pernas longas descendo para a Baixa de Luanda. Irresistível. Fui atrás. Pensei chamá-la, acompanhar ao lado. Mas ela não ia ouvir o apelo, abafado pelo barulho dos carros e os gritos dos vendedores ambulantes. Andei só. Perdendo terreno. A ciática não deixava descer depressa e ela foi afastando, afastando. Via o cabelo carapinha larga lá à frente, já com muita gente entre nós. Depois perdi-a de vista. E me perguntei, porquê a persigo? Realmente só havia uma razão, aquele olhar ausente. Afinal o pensamento dela estava na Lunda antiga. Nunca fui bom adivinho, embora o senso comum atribua esse dom aos escritores. E sou eu realmente escritor? Há vinte anos me pergunto, apesar de nisso crer há mais de quarenta, quando imaginei o primeiro encontro conto. Angústias de quem se procura toda a vida, enchendo páginas para resolver o enigma. Mas as minhas angústias desinteressam, não são elas que vou tratar, pois Lu já as tem de mais, e o Mundo então…
Faltavam poucos meses para a mudança do século. Os velhos mitos renasciam com a aproximação do ano 2000. Medos. Esperanças. Arritmias. Fim do Mundo, Julgamento Final? Bem procurávamos nos afastar desses temores, pensando isso são mitos da Europa, lendas criadas a partir dos semitas e do Novo Testamento, que temos nós, bantos, a ver com isso, os nossos mitos são outros, de nascimento e de formação, não de mortes e catástrofes escritas em livros antigos. Mas o Mundo deixara de ser o somatório de mundos fechados, era um só, cada vez mais mestiço. E os mujimbos assustados percorriam os becos dos muceques, as crianças paravam o jogo de bola nos areais vermelhos para pôr perguntas, será mesmo a Lua vai chocar com a Terra? Angústias do tempo presente.
Lu tinha de outra ordem. Raramente pensava no próximo ano 2000. Ouvia música indefinível de marimbas, procurava algo desconhecido em livros sobre a Luanda, só porque a avó viera de lá para Benguela e encheu a infância dela de lendas e estórias de feitiços, cuidado menina, teu pai não acredita porque é branco, mas eu vivi muito, sabedoria antiga, não despreza só. E Lu agora ia a caminho do Grupo de Dança «Kukina» (…) Ia chegar atrasada ao ensaio, o que começava a se tornar rotina. Nunca antes tinha acontecido, era modelo de pontualidade no grupo. Mas ultimamente, talvez pela ânsia de devorar livros do Centro de Documentação, talvez pela procura cega que efectuava, talvez porque as marimbas tocavam e ela não as entendia, perdia a noção do tempo e chegava depois do aquecimento.
(…)
Os sons de marimba não saíam do cérebro, frescos e gotejantes como a água da Chela. Seria música de fundo do casamento de Lueji? Porque os chingufos e mondos o anunciaram a todos os recantos do reino, mas só as marimbas o celebraram. Talvez.
- Estás mais uma vez atrasada, Lu – disparou logo a professora, quando entrou na sede do Grupo, antigo palácio duma escravocrata enriquecida com o tráfico para o Brasil, no século passado.
Os colegas estavam já nas barras, aquecendo. Lu fez um dúbio sorriso para a professora, entrou na sala que servia de camarim. Na passagem notou Uli, brilhante de suor, reforçando os músculos dos braços com pesos. Para poder levantar, aparentando apenas prazer, nenhum esforço.
Depois de trocar a roupa, Lu se ao lado dele: Uli apenas lhe sorriu, se concentrou de novo nos pesos. Ele estará sempre comigo, pensou, começando os exercícios de aquecimento. Sempre? Tinha de ser. Como enfrentar o mundo se não tivesse aquele ombro forte onde amparar suas dúvidas? (…) Conheceu-o quando entrou para a escola de dança, tinha seis anos e era uma mulatinha esguia, salimentando do rítimo e recusando o pão e a sopa. Uli tinha mais três anos e já era um iniciado nos saltos e nas piruetas. Tomou-a sob a sua protecção, era delgado mas forte, de voz e maneiras suaves. Anos depois formaram um par constante na dança. Ela era leve e ousada, Uli punha-a a voar pelo palco e estava sempre na outra ponta para a receber.
(…)
O coreógrafo chegou, cumprimentou num português estropiado: era checoslovaco, vindo especialmente por três meses para preparar um espectáculo. A professora deu por terminado o período de aquecimento e sentou numa cadeira a observar. Servia de assistente, mas era tarefa difícil pois até hoje não tinha entendido o objectivo do coreógrafo. Nem os bailarinos, pensou Lu. Nem o escritor, Dinoulan, o celebrado, que concebera a novela «Cahama», uma vintena de anos atrás. (…)
O coreógrafo com auxílio dum tradutor, trucidou a novela na adaptação para o bailado. Alongou as cenas de amor e de tortura, imaginou danças de guerreiros cuanhamas no espaço estreito da guarnição, acrescentou uma cena final de revolta no exército invasor. De tal modo modificou a estória que nem mesmo o escritor, traduzido em vinte línguas e com um nome a preservar, podia descobrir no roteiro a sua própria criação. (…)
Outro problema era a música. Contactados, os compositores angolanos desconseguiram pegar na ideia, a coreografia exigia sinfonia vigorosa, bélica, que não estava nos seus hábitos todos feitos de requebros e rítimos sensuais.
Por isso, ensaiavam a maior parte dos passos com o «Spartacus» de Katchaturian. E os pés estavam cada vez mais inchados. Uli trazia gelo de casa para os tratar nas pausas. Era finalista de Medicina e queria estudar as lesões provocadas pela dança, juntaria assim a ciência à arte. Com este coreógrafo precisas é de estudar feitiço para nos salvar, gozava Lu.
Naquela mesma manhã em que para mim tudo começou ao ver Lu de olhar ausente, sucedeu o drama.
Ao fim de uma hora de saltos e batidas de pés, Lu já nada sentia. Sobretudo, não sentia a música. Era o mais grave, tudo se tornava mecânico, impessoal, ela não dançava, apenas o seu cazumbi. Ainda por cima, na cena de tortura, atirada no ar entre três bailarinos, que dela faziam uma boneca desarticulada, mais uma vez um deles falhou e Lu se despedaçou contra o chão de madeira. Uli sentiu no próprio corpo o ruído dos ossos a fracturarem, deu um grito, se precipitou sobre o corpo caído. Lu não se mexia.
- Ninguém toca – berrou Uli, ameaçador – Ninguém toca.
O coreógrafo tinha aproximado solícito, mas o rapaz lhe deu um safanão que o fez recuar três passos. Pegou em Lu com todo o cuidado e levou-a para o camarim. Aí ajoelhou, tocando de leve todo o corpo dela; as lágrimas teimosas se colando de suor. (…) As mãos dele percorriam docemente o corpo dela, à procura de lesões e, ao mesmo tempo, em carícia de a trazer à vida. E trouxe. Lu abriu os olhos, viu reclinada sobre ela a bela cara negra, sorriu. (…)
Fizemos amor, Uli?
A fala atirou a cara dele para trás, num rictus horrorizado, e as mãos afastaram do corpo dela.
- Como podes pensar isso? Que te deu?
A reacção de Uli lhe trouxe a realidade. Nunca o tinham feito, eram mais que irmãos, nunca o fariam, certamente. Naquele momento, Lu lamentou a ausência. Pela primeira vez na vida.
- Aqueles tipos te deixaram cair. Desmaiaste: Estava a ver se tinhas partido alguma coisa. Só isso.
Uli falava rispidamente, parecia a culpa era dela. Distante, tenso. Ela lhe segurou na mão que se manteve hirta.
- Desculpa pelo que disse. Não foi por mal.
(…)
Lu se levantou, apoiada a ele. Doíam as ancas e os ombros mas não devia ser nada de grave. Ele fê-la friccionar para a frente, já para trás, para os lados. À altura da anca esquerda havia já um ligeiro inchaço. Uli entregou o gelo.
- Tira o collant e fricciona com gelo. Tenho de falar com esse checo.
Saiu e fechou a porta. Antes do sucedido, seria normal ele próprio lhe tirar as meias e a tratar. Mil vezes o tinha feito. Porque fui perguntar aquilo, cretina? Ofendi-o, afastei-o. Vai demorar a esquecer. (…)
- Já lhe disse isso mil vezes. Para se atirarem assim a dois metros do chão, tenho de estar eu do outro lado para a receber. Só eu. Quando a matar, vai entender. Mas aí mato-o eu também.
Uli parecia um leão furioso, tinha perdido o tom suave. Lu achou lhe fica bem a cólera. Mas o coreógrafo não sassustou com a ameaça, sorriu do alto da sua superioridade.
- Você comandante das Fapla, não estarr ali. (…). Não entenderr?
(…)
Não, não - teimou o checo. – Cara não se verr, mas corpo igual.
Uli olhou, impotente, para Lu. Ela encolheu os ombros, afagando a anca.
- O que eu sei é que nos próximos dias não vou poder ensaiar. Está a doer muito. E além disso não posso acertar o rítimo se na minha cabeça soam marimbas.
Ninguém a entendeu e Uli pensou a queda transtornou-a mesmo, precisa de descansar.
- Vou levar Lu a casa.
(…)
2
A entronização de Lueji não teve o brilho da dos chefes anteriores
(…)
Foi uma cerimónia simples, no grande tchota do Conselho e o povo à volta na praça. Lueji foi purificada pela pemba, recebeu o fogo sagrado que colocou à entrada da sala. Todos os fogos foram então apagados em Mussumba, só ficou o que ela acendeu. Todos teriam de o ir aí buscar com archotes, para acenderem os das suas casas. Lhe colocaram sobre os ombros o manto real de cor de púrpura, vindo gerações atrás do lago salgado de Oriente, lhe entregaram o ceptro talhado em pau-preto que ela segurou, pensando preferir uma rosa de porcelana. Sobre a cabeça lhe colocaram as miluínas do poder, ao pescoço o colar tchimba com grande concha trazida também do Leste. Lhe entregaram depois o machadinho de duplo gume, símbolo de chefia, e o mupungo, espanta-moscas com sortilégios mágicos. Finalmente ela ergeu o braço acima da cabeça para todos verem o lukano sagrado que o pai lhe colocara no pulso. Todos bateram palmas e assim reconheceram nela a rainha.
(…) Ouvia as ngomas a marcar o rítimo para as danças e lhe ocorreu ir lá para fora se misturar com o povo. Como se a festa não fosse em sua honra. Porque assim não tinha piada nenhuma, nem dava gozo dançar. Quando era uma rapariga como as outras, não perdia um minuto de dança. E quem a perdia? Voluntariamente, ninguém. A dança está no sangue, no coração, nos tendões. Basta os tambores o rítimo marcarem, o corpo começa a se agitar, o sangue aquecendo por dentro, e os pés e as ancas têm de seguir. É tão assim que já ninguém repara nisso.
Estava só. Terrivelmente só. Ela e o seu lukano. Tinha de habituar à solidão que havia de ser sua vida, a partir de agora. Mas sentia revolta. (…) Trocava facilmente o lukano pela liberdade perdida. Hoje. Mais tarde também?
Mais tarde se veria. Agora é preciso deitar, descansar e esperar o médico, Timóteo, amigo comum. Assim, falou Uli e Lu obedeceu, se deitando logo.
- Não é melhor dares uma massagem? Tenho ali linimento.
(…)
- Prefiro chamar o Timóteo, ele é médico e eu ainda não.
Noutras circunstâncias ela ia rir, pela infantilidade da desculpa. Mas não teve vontade, pois percebeu o frio que nele entrou, a distância provocada pela cena do camarim. Despiu as jeans, ficou com a cueca castanha-clara, única cor usada para se confundir com a cor da pele, segredo de bailarina.
Uli desviou o olhar.
- Está inchado e azul. Faz lá uma massagem. Por favor.
Contrafeito, Uli foi buscar o linimento. Tenho de me dominar, pensou ela. Mas, pôssas, também vamos modificar os hábitos só porque descobri nele um homem. O rapaz fez a massagem, rígido e profissional, mudo. (…)
- De qualquer modo o Timóteo vai passar a logo. E hoje não vais andar, é preciso deixar isso descansar.
- Ok, doc!
Ele sorriu pela primeira vez. Descontraiu?
- Sonha com as marimbas. (…)
(…) o corpo de Uli era inconfundível (…) Até já ganhara medo, retraía-se, o que dificultava o trabalho de Jaime. E Jaime era um bom bailarino. Mas para me agarrar naqueles saltos só mesmo o Uli, não vale a pena, quantas vezes já tentara com o Jaime? Com Uli era intuitivo, nem precisavam treinar antes. (…) Eram muitos anos de união carnal, pareciam siameses.
Lu notou isso sobretudo em Paris, quando, dois anos antes, foi lá fazer um estágio de seis meses. Tremendamente caro. Mas o Governo pagou tudo, apostou nela. Estágio de dança moderna numa grande escola. (…) A maka foi que queriam pô-la a dançar o Gisela.Modernizado, mas sempre a Gisela. Seria a sua grande oportunidade, diziam, o lançamento na Europa. Ao coreógrafo agradava a ideia de uma Gisela bem escura, talvez fosse novidade. Mas ela recusou, vim fazer o estágio de moderno e não danço o Gisela, por muito computorizado que seja. (…) Não, não e não, findos os seis meses volto mesmo para a terra, respirar o ar fétido dos contentores de lixo, torcer os pés nos buracos das ruas, mas receber ao mesmo tempo as carícias do Sol e o sorriso das gentes, lá me inspiro. E no estágio sapercebeu, nenhum dos bailarinos a agarrava como Uli, nenhum advinhava como ele, por melhores que fossem. (…
E Uli nunca seria profissional, cúmulo da ironia do destino. Seria médico e só bailarino de horas vagas. Lu queria ser profissional, quase impossível de conseguir em Angola, não havia público que enchesse sempre as salas de espectáculo. Talvez só quando tivesse quarenta anos! Se falava numa lei que previa salários do Estado para os artistas de qualidade, permitindo o aperfeiçoamento que só profissionalismo dá. Se falava. Mas se falava de tanta coisa, o mujimbo sempre foi entretenimento nacional. Mesmo que isso acontecesse, Uli nunca ia aceitar abandonar a ciência.
Por quereres um mbambi, vais perder muitos songues, tinha dito o adivinho a Lueji. Também ela, Lu?
Levantou, pôs um disco de Vivaldi, sempre o mesmo. As Quatro Estações. Os violinos tomaram-na, parou no Verão, uns sons de marimba entravam em perfeição, porquê o Vivaldi não conheceu a marimba? Ou porquê temos um Vivaldi para compor uma sinfonia de marimbas? (…)
(…)
É espantoso tudo o que se passa na cabeça das pessoas e nós não percebemos. Ou esquecemos de notar. Como podia eu, só de ver o olhar vazio de Lu na rua, ter intuído o drama? Vi, senti qualquer coisa, segui atrás, perdi-a. Mais tarde ela ia contar. E, abismado, descubro que fui assistente involuntário do começo. E se o descobri, foi porque esse olhar provocou interesse e dela me aproximei. Rondei durante dias a sede do Grupo «Kukina» sem ousar entrar. Já a conhecia, mas não éramos amigos. Tinha de ser um reencontro casual. Se me perguntava, não podia explicar porquê queria o encontro. Não era desejo físico, embora toda a gente saiba como era apetecível. Mas eu estava numa fase difícil, era a quarta mulher em pouco tempo que mabandonava, dizendo com escritor nunca mais, são todos cacimbados, se falo é porque falei quando não devia, se me calo é porque é porque estás chateada comigo, estás a pensar noutro, porra, escritor só visto em capa de livro. Mais uma vez fiquei com um vazio, apesar do hábito. E estava ficar velho para essas andanças. O interesse veio apenas de tentar decifrar aquele olhar. Talvez me desse uma ideia para um livro que em vão procurava faz dois anos. Crise total, pessoal e de inspiração, mas anda uma sem a outra?
EPÍLOGO
AGORA SOU EU QUE FALO; EU; MULAJI,
filho de Sumbi e Kakeya, um pobre pescador.
Serei mesmo filho de Sumbi? Uma dúvida sempre pairou e não agora, depois de velho, que me vou preocupar em saber se o meu pai era mesmo aquele pescador que foi escravo de Yala Muako, ou do próprio Muako. Nasci na casa de Sumbi, da barriga de Kakeya, sua mulher, por isso seu filho sou. E nunca quis ser irmão de Kondi. Também dizem o muata Yanvu não é filho de Lueji, porque ela foi sempre estéril. E de facto nunca teve mais nenhum filho, o que é estranho. Mas isso tem alguma importância? Mãe ou pai é aquele que nos dá uma casa e comida todos os dias e nos dá amor. Senão haveria órfãos abandonados e bastardos sem pai ou mãe que sofreriam os rigores dos sem família. Se mesmo os escravos apanhados em terras longínquas logo se tornam gente da casa e da família do seu dono, porque não os que nascem na dúvida? Para quê criar descontentes que depois se vingam enfeitiçando as famílias? A sabedoria que nos vem dos tempos antigos vai se perder um dia? Desgraças se abaterão sobre a Lunda.
De todos sempre escondi um dom, até de minha mulher. Se alguém soubesse, logo me ia utilizar e não gosto de ser utilizado como uma panela. Mas àqueles que vão viver muito tempo depois de eu morrer, posso revelar esse segredo, já não fará mal. Às vezes, não é sempre, quando a Lua cheia deixa ver Muiza ao mesmo tempo, o que é raro, eu vejo em Muiza aquilo que vai passar. Mas não as coisas de amanhã. E que vi então várias vezes em Muiza?
Este muata Yantu não vai reinar muito tempo. Morrerá na sua primeira guerra de conquista. Lhe sucederá o seu irmão mais novo, filho de Ylunga e de Kamonga Luaza, que se tornará Yanvu e portanto da mesma linhagem. (…)
E lá em cima, a vaidade dos muata Yanvu que nunca morrem se tornará enorme. Esquecerão os ensinamentos de Lueji, não há ensinamentos que sempre durem. (…)
Quem vai saber um dia que ela sofreu por ter perdido o lago da sua infância, onde havia estranhas aparições de porcelana? (…)
Os muata Yanvu vão ser os primeiros a esquecer isso tudo. Apenas vão querer que se saiba da sua ascendência divina, os iguais de Nzambi, e por isso terão todos os direitos Se vêm duma mulher que tinha as suas dúvidas e fraquezas, isso não lhe interessa. E se as pessoas pensassem, afinal os muata Yanvu são gente como nós? Perdida a força do trono, desgraça da Lunda. Como eles se enganam. A força da Lunda estava nisso que eles esqueceram, que procuraram ocultar dos outros. E os meus filhos e netos vão ver Nzambi e os espíritos personificados, vão temê-los apenas.
E um dia muito longe, fartos de ser humilhados e espoliados, outros povos vão se levantar nas nascentes do Cassai contra o despotismo do muata Yanvu. Neste momento já se encontram lá devagarinho-vagarinho. Um dia vêm pintados de guerra e tomam a Mussumba e acabam o Império. Alguém vai lamentar? Não seria eu, se nesse tempo vivesse.
Percebem porquê não posso falar o que vejo em Muiza? Prefiro ficar calado, nas margens do Kalanhi, conversando com os peixes que me ouvem, com águas que me refrescam, relembrando aquela mulher que um dia veio me procurar, pedindo conselho, apesar de ser rainha. Como a amei. Tinha o poder da vida e de morte sobre todos nós, e lutou para nos dar vida. Frágil e cheia de medos e de dúvidas, pressinto. Errou no fim, criando em Yanvu a ideia de que ele era igual a Nzambi?. Foi ela a responsável pelos futuros desmandos dos muata Yanvu e a derrocada do Império que ela criou? Claro que sim ela é a responsável. Sempre foi assim, o criador de uma coisa é também o criador da morte dessa coisa, ao dar a vida dá a morte. (…) Lueji criou um Império e criou as condições da sua destruição. Só podia ser assim.
Porquê culpá-la da sua humanidade?
Luanda, Fevereiro de 1988
11/01/2008
Pepetela:
Com um sentir que emana alegria e respeito, agarrei nesta canetinha virtual que nos ajuda a rabiscar letras e palavras de forma mais célere...
Aconteceu que contactei a Ana Paula Tavares, minha grande amiga de infância, para convidá-la a participar num website que está a ser construído por amigo angolano e por mim. Partiu esta ideia de uma enorme vontade de darmos azo à vontade constante de vivenciar Angola. Não vivendo de saudosismos balofos, pensámos em criar o website com o objectivo de divulgar os vultos culturais angolanos, nas vertentes da pintura, escultura, fotografia, literatura, música e uma página de educação. Pode parecer redundante esta nossa ideia, pois dir-me-à Pepetela: - Mas já proliferam tantos sites com estas directrizes. De todo tem razão, mas, com a divulgação da cultura angolana, pretendemos nós ajudar, com o apoio da Cruz Vermelha Internacional, a avolumar recursos físicos para a alfabetização de invisuais ou ajuda de famílias mais carenciadas. Ontem, mesmo, referi ao meu amigo que teremos de pedir apoio a empresas para angariação de computadores a serem distribuídos por escolas.
Como sou amiga pessoal de Serafim Jorge, da AMI, também pedi ajuda para poder ajudar. E assim, a teia vai crescendo, e espero com bons frutos, para mitigar, um pouquinho, tanto das reais necessidades da nossa terra, quanto da vontade saudosa de poder colaborar.
Posso dizer-lhe que no campo da literatura a Ana Paula aceitou o proposto e no que concerne à pintura aderiram vários, na maioria meus amigos; na escultura António Magina e na música, para além de estar a aguardar possibilidade de contacto com Bonga, já tenho a anuência de Guida Vargas.
Como consumo os seus livros, desde há muito, pedi à Ana Paula que lhe propusesse a sua adesão. Ontem, porém a Ana, por motivos que se prendem com o trabalho da tese, enviou-me o seu mail que usei sem abuso, mas com admiração.
Se estiver disposto a colaborar, precisamos que nos autorize a publicação de uma foto, nomes de obras e extractos de algumas.
Caso queira ajudar-nos a escolher um conto, para ser trabalhado didacticamente, para a página de educação dos mais pequeninos, agradecemos.
Se não for abuso, pedia-lhe umas letrinhas para o nosso projecto de nome Minha Angola.
Com a maior consideração pelo ser que transpõe para o papel a vivência de um Povo.
Filomena Malva a quem a Paula chama de Filó.
Em 14/01/08, Artur Pestana (Pepetela) escreveu:
Cara Filó,
Claro que estou de acordo em colaborar convosco para o site. Basta ser amiga da Ana Paula para me convencer. Pode fazer as transcrições. Se precisar de uma foto, também arranjo, tenho já umas no computador. Depois diga que tipo de texto quer. Quanto ao conto para mais pequenos, já tenho alguma dificuldade, nunca foi a minha área (o máximo foi a Montanha da Água Lilás, mas que é muito grande para conto). Mas vamos conversando.
Um abraço,
Pepetela
January 17, 2008
Estimado Pepetela:
Começando por pedir desculpas pelo atraso na resposta, devido ao acréscimo de trabalho lectivo, começo por agradecer a aceitação de colaborar no website. Permita-me que lhe diga o quanto me senti feliz por tal honra.
Já adquiri o livro Montanha da Água Lilás e vou didactizá-lo para o website. Quando estiver pronta, mandar-lhe-ei para ver se gosta.
Como o projecto terá um espaço dedicado à literatura, como se de uma sala se tratasse, irei fazer a amostragem de capas de livros seus e transcrições. Assim, escolhi para lançamento do referido wbsite, a obra que retrata o reino de Lueji. Da minha interpretação, busquei a formação de Angola, e dos estudos, que fiz para o meu mestrado, pude perceber a interligação entre o fundo documental e a ficção com que Pepetela nos presenteia com mestria e amor. Bem-Haja!
Sobre a minha escolha, gostaria de pedir a sua opinião.
Sobre o texto para o site, uma vez que vamos apresentar a página da literatura como uma fonte de transmissão de saber, gostaria que constituísse um apelo à formação de um povo que se pretende compreenda e construa o seu espaço.
Aproveito para convidá-lo, tal como fiz com a Ana Paula, para fazer parte da lista de membros honorários, lugar que honrosamente concedemos aos vultos da cultura angolana.
Por favor, envie-me foto sua pois tomo como um carinho de um Amigo da Minha Amiga.
Com muita admiração, receba um forte abraço.
Filo
Em 18/01/08, Artur Pestana (Pepetela) escreveu:
Cara Filó,
Estou de acordo com a utilização do "Lueji", o qual, talvez pelo seu volume, acaba por ser dos meus livros menos divulgados.
Não tem que agradecer, eu é que me sinto honrado. E claro que aceito ser membro honorário. Segue uma foto actual (ponho-me em posição de nunca mostrar a careca que vai nascendo e crescendo, crescendo...)
Um abraço,
Pepetela
February 20, 2008 8:04 PM
Estimado Pepetela:
Tal como terminou um dos seus emails, vamos conversando, se bem que trivial e intimista, permita-me que lhe pergunte: Como vai, Pepetela?
Por aqui, trabalho no projecto e, para além dos muitos contactos que tive de estabelecer, dispus do meu tempo para transcrever, em jeito de síntese, Lueji O Nascimento do Império. Procurei, com o meu trabalho, dar a conhecer a riqueza tradicional de Angola de há 400 anos, na riqueza do seu vocabulário, que deve ser conhecido, no ponto de convergência entre Lueji e Lu e na indução para a leitura do livro.
Se não for pedir muito vou mandar-lhe o que fiz, bem como um comentário que fiz, como modesta leitora que sou.
Muito grata fico.
Um forte abraço
Filó
Em 22/02/08, Artur Pestana (Pepetela) escreveu:
Estimada Filó,
Andei pela Póvoa e por isso só hoje lhe respondo, acusando recepção da sua mensagem.
Muito obrigado pela gentileza que revela no seu trabalho. Acho que sobre o livro Lueji, não tenho nada a objectar, pois apanhou a ideia essencial que me norteou. Uma pista só para si: na última página do livro, só se fala de Lueji em jeito de balanço ou talvez também se aponta para Agostinho Neto? A dúvida é minha, surgiu ao escrever... Como sabe, nem sempre o escritor controla a escrita, e ainda bem...
Um grande abraço,
Pepetela
23/02/2008
Pepetela:
As palavras, sempre sábias, de quem leio frequentemente, impeliram-me a cogitações, nunca satisfeitas porque assim sou por essência.
Pepetela escreveu e eu acho que percebi a alma do escritor, mas não vou responder sem reler com atenção redobrada o Epílogo. Foi o que fiz. E, insatisfeita ainda, revoltearam-se outras e outras páginas do livro, sem perder a linha de pensamento do escritor. Acabado o acto de reler, com o gosto e a argúcia redobradas, acho que o escritor, aquele que não controla a escrita e bem, tem razão.
E, se não for importunar demais, propunha-lhe que, devagarinho-vagarinho, conversássemos sobre as obras que for transcrevendo, em escritos que poderíamos colocar no site, para que se estimulasse para a leitura, sob o título Vamos Conversando, Pepetela.
Permita-me, que neste contexto, reconstruíssemos a Mussumba, onde Pepetela seria Lueji e eu Uli.
Um forte abraço, Filó
03/03/2008
Pepetela:
Mais uma vez a importuná-lo mas, como a ser tão generoso ao responder, estou preocupada com o facto de o ter magoado com o pedido que lhe fiz. De todo, não fui intencional, pois para mim o valor duma amizade, porque já nutro, sobreleva tudo o resto.
Um forte abraço, Filó
Artur Pestana (Pepetela)"
04/03/2008
Cara Filó,
Não me magoou nada. Só que agora estou muito ocupado com o lançamento do meu livro e não tenho podido pensar no assunto.
Um abraço,
Pepetela
PS: No Youtube está um video bonitinho sobre o meu último livro, "O Quase Fim do Mundo"
.
18/03/2008
Pepetela,
Apenas um passar para lhe perguntar se estás disposto a colaborar, de forma muito espaçada, até porque o wbsite ainda está em construção, na hipotética rubrica: Vamos conversando, Pepetela.
Mesmo não podendo, como é bastante compreensivo, permita-me que de quando em vez me dirija ao escritor que tanto admiro.
Um abraço, Filó
De "Artur Pestana (Pepetela)"
19/03/2008
Filó,
Podemos ir conversando, mas sem muita intensidade para não cansar. E se por acaso eu atrasar nas respostas, não leve a mal.
Um abraço,
Pepetela
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